Rede de urgência e classificação de risco, avaliação ABCDE, suporte básico de vida pelas diretrizes de 2025, emergências clínicas e trauma: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
A rede de urgência e a classificação de risco
Antes da técnica vem a organização: saber para onde vai cada caso, quem chega primeiro e por quê. É o que evita que o infarto espere atrás da dor de garganta.
O que este curso é
Este é um curso livre de noções. Ele organiza conceitos, protocolos e condutas de reconhecimento — e não substitui treinamento prático presencial com simulação, nem os cursos de suporte de vida com certificação própria, nem a formação técnica regulamentada. Procedimento se aprende com as mãos, sob supervisão.
Os componentes da rede
Atenção básica — resolve boa parte das urgências de menor complexidade e é porta de entrada.
SAMU 192 — atendimento móvel. A regulação médica define o recurso enviado: unidade de suporte básico, com técnico e condutor socorrista, ou de suporte avançado, com médico e enfermeiro.
UPA e unidades de pronto atendimento — complexidade intermediária, 24 horas, com estabilização e observação.
Portas hospitalares de urgência — retaguarda para os casos que exigem internação e alta complexidade.
Atenção domiciliar e leitos de retaguarda, que desafogam a porta.
Ao acionar o 192, o que acelera o socorro é informar com objetividade: local exato com ponto de referência, o que aconteceu, quantas vítimas, estado de consciência e respiração, e um telefone de contato. Não desligue antes de o atendente liberar — ele pode orientar manobras enquanto a equipe se desloca, e essa orientação salva vidas.
Acolhimento com classificação de risco
O atendimento na urgência não é por ordem de chegada: é por gravidade. A classificação de risco é realizada por enfermeiro capacitado, com protocolo institucional, e define a prioridade.
O protocolo mais difundido no Brasil é o de Manchester, com cinco níveis:
Cor
Prioridade
Tempo-alvo para o atendimento médico
Vermelho
Emergente
Imediato
Laranja
Muito urgente
Cerca de 10 minutos
Amarelo
Urgente
Cerca de 60 minutos
Verde
Pouco urgente
Cerca de 120 minutos
Azul
Não urgente
Cerca de 240 minutos
Três pontos que evitam conflito no balcão: a classificação não é diagnóstico, e sim estimativa de risco e tempo seguro de espera; ela deve ser reavaliada enquanto a pessoa aguarda, porque o quadro muda; e explicar o critério reduz agressão — a maior parte da hostilidade na espera nasce da sensação de injustiça, não da espera em si.
Classificar é atividade de responsabilidade elevada, e por isso exige capacitação específica e protocolo escrito, além de registro de quem classificou e de quando.
Módulo 2 de 5
Avaliação inicial da vítima
Na urgência, avaliar é uma sequência: resolve-se o que mata primeiro, antes de olhar o que chama mais atenção. Ferimento aparatoso não tem prioridade sobre via aérea obstruída.
Antes de tudo: segurança
A primeira avaliação é a da cena. Socorrista acidentado vira segunda vítima e consome o socorro da primeira. Verifique trânsito, eletricidade, fogo, risco de desabamento, gás, animais e agressor presente — e use EPI, ainda que seja apenas luva.
A sequência ABCDE
Letra
O que avaliar
O que buscar
A — vias aéreas
Permeabilidade, com proteção da coluna cervical em trauma
Dispneia, cianose, assimetria, uso de musculatura acessória
C — circulação
Pulso, pressão, perfusão, sangramentos
Hemorragia, pulso fino, extremidades frias, enchimento capilar lento
D — neurológico
Nível de consciência, pupilas, glicemia
Confusão, sonolência, déficit focal, hipoglicemia
E — exposição
Expor para examinar, e prevenir hipotermia
Lesões ocultas, sangramento no dorso, manchas de pele
A regra de ouro: não se avança para a próxima letra sem resolver a anterior. Via aérea obstruída se resolve antes de medir pressão.
Em trauma com sangramento externo grave, muitos protocolos antecipam o controle da hemorragia exsanguinante — o chamado X antes do A —, porque hemorragia maciça mata em minutos.
Nível de consciência
Para uma triagem rápida, usa-se a escala AVDI: Alerta, responde ao estímulo Verbal, responde ao estímulo Doloroso, Irresponsivo. Em ambiente hospitalar e no trauma, a referência é a Escala de Coma de Glasgow, que avalia abertura ocular, resposta verbal e resposta motora.
Qualquer rebaixamento novo do nível de consciência é emergência até prova em contrário — e a primeira coisa a verificar é a glicemia capilar, porque hipoglicemia imita quadro neurológico grave e se resolve em minutos.
Reconhecer a parada cardiorrespiratória
Três achados, verificados em até 10 segundos, simultaneamente:
Irresponsividade — não responde ao chamado e ao toque nos ombros.
Respiração ausente ou anormal — incluindo o gasping, aquela respiração agônica, ruidosa e irregular.
Ausência de pulso central — carotídeo no adulto; verificado por profissional treinado, sem ultrapassar 10 segundos.
O gasping é a armadilha clássica: parece respiração e não é. Vítima que "ainda respirava" e não recebeu compressões é uma das causas mais frequentes de atraso fatal. Na dúvida, inicie a RCP: o prejuízo de comprimir quem não estava em parada é muito menor que o de não comprimir quem estava.
Módulo 3 de 5
Suporte básico de vida e desfibrilação
Os parâmetros a seguir seguem as Diretrizes da American Heart Association de 2025. Diretriz se atualiza: antes de ensinar ou de aplicar em avaliação, confirme a versão vigente.
A cadeia de sobrevivência
No adulto, fora do hospital: reconhecimento e acionamento do socorro → RCP imediata e de alta qualidade → desfibrilação rápida → atendimento avançado → cuidados pós-parada → recuperação. Os dois primeiros elos dependem de quem está ao lado da vítima, e são os que mais determinam o desfecho.
RCP de alta qualidade no adulto
Parâmetro
Recomendação
Local das mãos
Metade inferior do esterno, no centro do tórax
Frequência
100 a 120 compressões por minuto
Profundidade
5 a 6 cm no adulto
Retorno do tórax
Completo entre as compressões, sem apoiar o peso
Interrupções
As mínimas possíveis, idealmente menos de 10 segundos
Relação com ventilação
30 compressões para 2 ventilações, antes de via aérea avançada
Com via aérea avançada
Compressões contínuas e 1 ventilação a cada 6 segundos
Revezamento
A cada 2 minutos, ou antes se houver fadiga
Superfície
Firme; o tronco da vítima aproximadamente na altura dos joelhos de quem comprime
Pontos que as diretrizes de 2025 reforçam: evitar tanto a hipo quanto a hiperventilação, buscando elevação visível do tórax; não usar rotineiramente dispositivos mecânicos de RCP, reservando-os a situações específicas; e aplicar em pessoas com obesidade a mesma técnica usada nas demais.
Quem não tem treinamento ou não se sente seguro para ventilar deve fazer compressões contínuas, sem interrupção, até a chegada do socorro. Compressão sem ventilação é muito melhor que nada.
Desfibrilador externo automático
Ligue o aparelho assim que ele chegar e siga os comandos de voz.
Seque o tórax se estiver molhado e posicione as pás conforme a figura, na pele nua.
Afaste-se durante a análise e durante o choque, avisando em voz alta.
Retome as compressões imediatamente após o choque, sem checar pulso antes.
Situações particulares: em marca-passo ou dispositivo implantado, posicione as pás a alguns centímetros de distância do aparelho; retire adesivos de medicação do local; em tórax muito peludo, se necessário, remova os pelos da área das pás; e nunca use o DEA sobre superfície alagada — remova a vítima da poça.
As diretrizes de 2025 trazem também uma orientação de equidade que vale repetir: em mulheres, é aceitável ajustar o sutiã em vez de removê-lo para posicionar as pás, porque o constrangimento tem sido barreira real — mulheres recebem desfibrilação pública em proporção significativamente menor que homens.
Engasgo: o que mudou em 2025
O manejo da obstrução de via aérea por corpo estranho foi atualizado, e esta é a mudança que mais contraria o que a maioria aprendeu.
Obstrução leve — a pessoa tosse, fala ou emite som: não intervenha. Incentive a tosse, fique ao lado e observe. Tosse eficaz é o melhor desobstrutor que existe.
Obstrução grave — não fala, não tosse, não emite som, pode levar as mãos ao pescoço:
Adulto e criança: alternar 5 golpes nas costas com 5 compressões abdominais, até expelir o objeto ou a vítima perder a consciência. A mudança está na ordem: começa-se pelos golpes nas costas, por evidência de maior alívio e menos lesão.
Lactente: alternar 5 golpes nas costas com 5 compressões torácicas, usando a base da mão. Não se fazem compressões abdominais em lactentes, pelo risco de lesão de órgãos abdominais.
Gestante em fase avançada, ou quando não se consegue circundar o abdome: 5 compressões torácicas no lugar das abdominais.
Se a vítima perder a consciência: acione o socorro, inicie a RCP e, a cada vez que for ventilar, olhe a boca e remova o objeto apenas se estiver visível e alcançável. Varredura digital às cegas, não.
Quem aprendeu só a manobra de compressão abdominal precisa atualizar: agora ela vem depois dos golpes nas costas, e não no lugar deles.
Módulo 4 de 5
Emergências clínicas
Reconhecer rápido e acionar certo é o que a enfermagem faz de mais decisivo aqui. Em várias destas situações, o tempo até o tratamento define a sequela.
Dor torácica e síndrome coronariana
Dor ou desconforto retroesternal, em aperto, peso ou queimação, que pode irradiar para braço, mandíbula, dorso ou epigástrio, com sudorese fria, náusea, palidez e dispneia.
Mantenha a pessoa em repouso, sentada ou semissentada. Não a deixe caminhar até o atendimento.
Acione o socorro imediatamente e prepare monitorização, oxigênio se indicado, acesso venoso e eletrocardiograma o quanto antes — o alvo é obtê-lo em poucos minutos da chegada.
Nada por via oral sem indicação.
Registre o horário de início da dor: é informação que define a conduta.
Atenção: mulheres, idosos e pessoas com diabetes podem apresentar quadros atípicos — cansaço, náusea, dor epigástrica, mal-estar — e justamente por isso demoram mais a procurar ajuda e a ser reconhecidos.
Acidente vascular cerebral
O reconhecimento usa sinais simples: assimetria da face, fraqueza em um dos braços, alteração da fala — e, diante de qualquer um deles, tempo: acionar o socorro imediatamente.
A informação mais valiosa que a enfermagem pode levantar é a hora exata em que a pessoa foi vista bem pela última vez, porque o tratamento de reperfusão tem janela. Verifique a glicemia, mantenha a pessoa em repouso, nada por via oral — o risco de aspiração é alto — e não administre nada para "baixar a pressão" por conta própria.
Crise convulsiva
Proteja a cabeça, afaste objetos, afrouxe roupas no pescoço.
Não contenha os movimentos e não coloque nada na boca — nem dedo, nem colher, nem pano. A pessoa não engole a língua, e a tentativa causa fratura dentária e lesão a quem socorre.
Cronometre a duração e observe as características.
Terminada a crise, lateralize a pessoa, avalie respiração e permaneça ao lado durante o período de confusão.
Verifique glicemia.
Acione socorro se a crise durar mais que alguns minutos, se houver crises consecutivas sem recuperação, se for a primeira crise, em gestantes, após trauma ou se não houver recuperação da consciência.
Hipoglicemia e anafilaxia: duas que resolvem rápido se reconhecidas
Hipoglicemia. Sudorese fria, tremor, palidez, fome, taquicardia, irritabilidade, confusão, podendo chegar a rebaixamento e convulsão.
Consciente e deglutindo: oferecer carboidrato de absorção rápida por via oral e reavaliar em alguns minutos.
Inconsciente ou sem deglutição segura:nada por via oral. Acionar imediatamente e preparar a via parenteral conforme prescrição e protocolo.
Qualquer rebaixamento de consciência sem causa conhecida pede glicemia capilar, sempre.
Anafilaxia. Reação alérgica grave e de instalação rápida, com acometimento de mais de um sistema: urticária e angioedema, dificuldade respiratória, estridor, broncoespasmo, hipotensão, náusea e vômito, sensação de morte iminente.
O tratamento de primeira linha é a adrenalina por via intramuscular, aplicada na face anterolateral da coxa, conforme prescrição e protocolo. Não há substituto: anti-histamínico e corticoide não revertem o quadro.
Interrompa a exposição ao agente, mantenha a pessoa deitada com as pernas elevadas se houver hipotensão, ofereça oxigênio e monitore.
Pode haver reação bifásica horas depois, e por isso a pessoa fica em observação.
Toda sala que administra medicamento ou vacina precisa ter material, medicamento e fluxo definidos para isso.
Choque e desconforto respiratório
Choque é a perfusão insuficiente dos tecidos, e os sinais se repetem qualquer que seja a causa: palidez, pele fria e pegajosa, taquicardia, pulso fino, hipotensão, confusão, redução da diurese, enchimento capilar lento. Os tipos clássicos são hipovolêmico, cardiogênico, distributivo — que inclui o séptico e o anafilático — e obstrutivo.
Na crise asmática e no desconforto respiratório, observe esforço, uso de musculatura acessória, incapacidade de falar frases completas, saturação e nível de consciência. Posicione sentado, mantenha a calma do ambiente, administre o broncodilatador prescrito e acione. Sonolência em quem estava agitado com dispneia é sinal de gravidade, não de melhora.
Módulo 5 de 5
Trauma, intoxicações e aspectos legais
Atendimento ao trauma
Segurança da cena primeiro, sempre.
Controle de hemorragia externa grave: compressão direta com material limpo, firme e contínua. Não retire o curativo encharcado — acrescente outro por cima. Torniquete apenas conforme protocolo e treinamento, com registro do horário.
Restrição de movimento da coluna conforme o protocolo do serviço, mantendo alinhamento da cabeça.
Não remova o capacete de motociclista, salvo necessidade imperiosa de via aérea e por quem tem treinamento, em dupla.
Objeto empalado não se retira — estabilize no lugar. Ele pode estar contendo a hemorragia.
Evisceração: não recoloque as vísceras; cubra com compressa úmida e estéril.
Amputação: o segmento vai limpo, em saco plástico, e este dentro de outro recipiente com gelo e água — sem contato direto com o gelo.
Previna a hipotermia, que agrava o sangramento, mesmo em dia quente.
Queimaduras
Interrompa a exposição e resfrie a área com água corrente em temperatura ambiente por alguns minutos.
Não use gelo, pasta de dente, manteiga, borra de café, pó de café ou qualquer substância caseira.
Não rompa bolhas e não remova roupa aderida à pele.
Retire anéis, pulseiras e relógios antes que o edema se instale.
Cubra com material limpo e seco; previna hipotermia nas queimaduras extensas.
Em queimadura química, remova a roupa contaminada e lave abundantemente com água corrente; não neutralize com outra substância.
Suspeite de lesão de via aérea em incêndio em ambiente fechado: rouquidão, fuligem nas narinas, pelos faciais queimados, estridor. É emergência.
Intoxicações
Procure identificar o quê, quanto, quando e por qual via, e leve a embalagem ao serviço. Não provoque vômito por rotina — em cáusticos e derivados de petróleo isso agrava a lesão — e não ofereça leite nem "antídoto caseiro".
O Disque Intoxicação da Anvisa é 0800 722 6001 e orienta profissionais e população. Em caso de parada ou rebaixamento, acione o 192.
O que a lei e a ética exigem
Omissão de socorro é crime previsto no art. 135 do Código Penal. Para o profissional de saúde, deixar de prestar assistência em urgência é também infração ética, com processo no COREN.
Atuar dentro da competência. A urgência não amplia o que cada categoria pode fazer. Técnico e auxiliar atuam sob supervisão do enfermeiro, e procedimentos privativos continuam privativos.
Consentimento e recusa. A pessoa capaz pode recusar atendimento, e a recusa deve ser registrada, com testemunha quando possível. Em risco iminente de morte, a assistência não é recusável pelo profissional.
Registro. Horários, o que se encontrou, o que foi feito, quem foi acionado e a resposta. Na urgência o registro costuma ser feito depois — mas tem de ser feito, e com fidelidade.
Preservação de local em casos de violência e acidente: não remova objetos nem roupas além do necessário ao atendimento, e comunique as autoridades conforme o protocolo.
Notificação compulsória de violências e de determinados agravos — obrigação do serviço, não opção.
Sigilo, inclusive sobre caso de repercussão. Nada de foto, nada de relato em grupo de mensagens, nada de comentário em rede social.
Depois do atendimento
Dois cuidados que a equipe costuma pular. O primeiro é a reposição e conferência do carro de emergência e do material, imediatamente após o uso — carro de parada incompleto no próximo atendimento é falha grave e evitável, e a checagem deve ser rotina registrada, não eventual.
O segundo é a equipe. Atendimento de parada, de óbito, de criança e de violência deixa marca. Conversar sobre o caso depois — o que funcionou, o que travou, como cada um está — não é frescura: é o que previne adoecimento e melhora o próximo atendimento. Serviço que nunca faz isso acumula gente exausta e erros que ninguém discutiu.
Para saber mais
Diretrizes da American Heart Association de 2025 para RCP e atendimento cardiovascular de emergência — e sempre a versão vigente.
Política Nacional de Atenção às Urgências e normas do SAMU 192; protocolos de acolhimento com classificação de risco do Ministério da Saúde.
Protocolo de Manchester, na versão adotada pelo seu serviço.
Pareceres do COFEN sobre classificação de risco e atuação da enfermagem na urgência.
Cursos "Primeiros Socorros no Dia a Dia", "Sinais Vitais e Avaliação do Paciente" e "Fundamentos, Ética e Legislação em Enfermagem", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.