Do historicismo aos Annales, marxismo britânico, micro-história, história cultural e a historiografia brasileira: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
O século XIX: quando a história virou disciplina
Teoria da história é a reflexão sobre como se produz conhecimento do passado: o que é um fato, o que é uma causa, o que o historiador pode e não pode afirmar. Historiografia é a história dessa produção — quem escreveu o quê, quando, e por quê. As duas andam juntas, e começam a andar juntas no século XIX.
Antes da disciplina
Escrever sobre o passado é antigo; a história como profissão universitária, com método próprio e critérios de prova, é do século XIX. Antes disso, a narrativa do passado servia à moral, à religião, à glória de um reino, e não precisava provar nada no sentido em que hoje entendemos.
O que muda no século XIX é a combinação de três coisas: a criação de arquivos nacionais abertos à consulta, a profissionalização do ensino superior e a ambição — herdada das ciências da natureza — de que o conhecimento do passado também pudesse ser verificável.
Ranke e o historicismo alemão
Leopold von Ranke (1795–1886) é o nome que organiza esse começo. Ensinando em Berlim, ele firmou o seminário como forma de formação: o aluno não ouvia uma exposição, ele examinava documentos sob orientação. Daí sai a ideia de que o historiador se forma trabalhando com fonte, não decorando síntese.
Dele vem a frase mais citada e mais mal compreendida da disciplina: a de que a tarefa do historiador seria mostrar o passado wie es eigentlich gewesen — em geral traduzida como "como de fato aconteceu". A tradução consagrada sugere um ideal de espelho fiel; parte dos estudiosos entende que o sentido original estava mais perto de "como essencialmente foi", o que é bem menos ingênuo.
De qualquer modo, o programa de Ranke envolvia: primazia da fonte primária de arquivo, desconfiança da crônica de segunda mão, crítica rigorosa do documento, e a convicção de que cada época tem valor próprio e deve ser compreendida em seus próprios termos — este último ponto é o núcleo do historicismo.
Historicismo não é positivismo
É comum ouvir que Ranke era positivista. Não era, e a confusão atrapalha.
O positivismo é a filosofia de Auguste Comte: a humanidade avança por estágios, há leis gerais do desenvolvimento social, e as ciências humanas devem buscar essas leis como a física busca as suas. É um projeto de generalização.
O historicismo alemão vai no sentido oposto: cada época e cada povo é singular, não se explica por lei geral, e deve ser entendido a partir de dentro. É um projeto de individualização.
O que os manuais escolares chamam de "história positivista" — factual, política, baseada em documento oficial, narrada em ordem cronológica — é, na maior parte das vezes, a história metódica francesa de Langlois e Seignobos, e não Comte nem Ranke. Saber distinguir isso costuma render ponto em prova e evita escrever bobagem no TCC.
A escola metódica francesa
Na França, a institucionalização veio com a Revue historique (1876) e com o manual de Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, a Introdução aos estudos históricos, de 1898. Ali está codificado o procedimento: heurística (encontrar as fontes), crítica externa, crítica interna, e só então a exposição.
O problema não era o método — ele continua válido. O problema era o recorte: o que se considerava digno de estudo era a política, a diplomacia, a guerra e os grandes homens, porque era disso que tratavam os documentos oficiais. A vida material, o trabalho, a família, as crenças ficavam de fora por não deixarem documento do tipo que a escola reconhecia.
Marx e a história como processo
Paralelamente, Karl Marx (1818–1883) oferece outra chave: a história tem um motor, e esse motor são as relações de produção e os conflitos entre classes. O materialismo histórico desloca a pergunta do "o que o rei decidiu" para "como esta sociedade produz o que consome e quem fica com o quê".
A influência sobre a historiografia do século XX foi imensa, inclusive sobre historiadores que não se diziam marxistas. Mas o marxismo da Segunda Internacional endureceu em versões mecânicas — a base econômica determinando a superestrutura de maneira automática —, e boa parte do que se discutirá no Módulo 3 é justamente a reação de historiadores marxistas contra esse mecanicismo.
Reconhecendo a matriz de um texto
Diante de um livro de história, três perguntas revelam de que tradição ele vem:
Que tipo de documento ele usa? Só ofício e tratado aponta para a escola metódica; registro paroquial e inventário aponta para os Annales; depoimento e processo aponta para história social e cultural.
Qual é a escala de tempo? A narrativa de uma década sugere história dos acontecimentos; a análise de dois séculos sugere longa duração.
Quem são os sujeitos? Se só aparecem nomes de governantes, é um tipo de história; se aparecem camponeses, escravizados, operárias e crianças, é outro.
Módulo 2 de 5
Os Annales e a história-problema
Em 1929, dois professores da Universidade de Estrasburgo fundaram uma revista para brigar com a historiografia dominante. A briga durou o século inteiro e mudou o que se entende por história em quase todo o mundo — inclusive no Brasil.
A primeira geração: Febvre e Bloch
Lucien Febvre e Marc Bloch criaram, em 1929, a revista Annales d'histoire économique et sociale. O programa tinha três eixos:
História-problema contra história-narração. O historiador não conta o que aconteceu em ordem: ele formula uma pergunta e constrói a resposta. Sem pergunta não há pesquisa, só compilação.
Diálogo com as ciências sociais. Geografia, economia, sociologia, psicologia, linguística — o historiador deve pegar emprestado o que precisar.
Ampliação das fontes e dos temas. Preço do trigo, mapa de campo, registro de batismo, técnica agrícola, crença religiosa: tudo entra.
Bloch escreveu dois livros decisivos: Os reis taumaturgos (1924), sobre a crença de que o toque do rei curava doença — um tema que a história política séria da época consideraria superstição irrelevante — e A sociedade feudal (1939-1940). O terceiro, Apologia da História, ou o ofício de historiador, ficou incompleto: Bloch, judeu e membro da Resistência francesa, foi preso e fuzilado pela Gestapo em 1944. O livro foi publicado em 1949, por Febvre.
Por que ler a Apologia
É um livro escrito na clandestinidade, sem biblioteca à mão, por um homem que sabia que podia não terminá-lo. Começa com a pergunta que um filho fez ao pai: para que serve a história?
O que torna o livro insubstituível é que Bloch discute o ofício do ponto de vista de quem o pratica — o erro de observação, a testemunha involuntária, o problema das origens, a ilusão de que compreender é desculpar. Nenhum manual de metodologia escrito depois conseguiu ser ao mesmo tempo tão honesto e tão breve.
A segunda geração: Braudel e a longa duração
Fernand Braudel (1902–1985) dá à escola sua forma mais ambiciosa. Sua tese sobre o Mediterrâneo na época de Filipe II, publicada em 1949, propõe três temporalidades superpostas:
Temporalidade
Ritmo
Do que trata
Longa duração (tempo geográfico)
Séculos, quase imóvel
Relevo, clima, rotas, estruturas que mudam devagar demais para serem percebidas por quem vive nelas
No artigo de 1958 sobre a longa duração, Braudel defende que o acontecimento é a camada mais superficial e mais enganosa — espuma na superfície de marés que ninguém vê. É uma posição poderosa e também criticada: ao dissolver o evento na estrutura, ela corre o risco de deixar pouco espaço para a ação humana.
Para o Brasil, há um detalhe que vale guardar: Braudel esteve entre os professores franceses que lecionaram na recém-criada Universidade de São Paulo, nos anos 1930. A relação da historiografia brasileira com os Annales não é apenas de leitura — é de formação direta.
A terceira geração: a Nova História
A partir dos anos 1960 e 1970, a escola se fragmenta em muitas direções, sob o rótulo de Nova História. Nomes centrais: Jacques Le Goff, Georges Duby, Emmanuel Le Roy Ladurie, Pierre Nora, Roger Chartier.
O que entra na agenda:
História das mentalidades — o que uma época considerava evidente sem precisar dizer: a relação com a morte, com o corpo, com o tempo, com o medo.
História do cotidiano, da infância, da família, da sexualidade, da alimentação.
História quantitativa serial — contar registros em massa para achar padrões.
História da memória — Pierre Nora e os lugares de memória: monumentos, datas, arquivos, museus como construções do presente sobre o passado.
Montaillou, de Le Roy Ladurie (1975), é o exemplo mais conhecido: a partir dos registros da Inquisição numa aldeia dos Pirineus, reconstrói o cotidiano, o parentesco, o pastoreio e as crenças de algumas dezenas de camponeses do século XIV.
A crítica que a escola recebeu
Três objeções aparecem com frequência e é bom conhecê-las:
A política sumiu. Ao reagir contra a história política tradicional, os Annales quase a aboliram. A nova história política, defendida por René Rémond a partir dos anos 1980, recupera o tema com outras ferramentas — eleição, partido, opinião pública, cultura política.
A estrutura sufoca o sujeito. Se tudo é longa duração, onde fica quem decide, resiste e muda? Essa é a objeção que o marxismo britânico e a micro-história vão desenvolver.
A fragmentação. Quando tudo é objeto possível, corre-se o risco de uma produção enorme e desconectada, sem interpretação de conjunto.
Módulo 3 de 5
O marxismo britânico e a história vista de baixo
Nos anos 1950 e 1960, um grupo de historiadores britânicos marxistas fez algo inesperado: usou o marxismo para criticar o marxismo. Em vez de deduzir a classe da posição na economia, foram procurá-la onde ela se fazia — nas canções, nos motins, nas sociedades de socorro mútuo, nos processos judiciais.
Quem eram
O grupo se formou em torno do Partido Comunista britânico e, depois de 1956, da revista Past and Present. Os nomes que você vai encontrar em qualquer bibliografia: Eric Hobsbawm, E. P. Thompson, Christopher Hill, Rodney Hilton, George Rudé, Raphael Samuel.
Thompson e a classe como processo
Edward Palmer Thompson publicou em 1963 A formação da classe operária inglesa, livro que reorienta a história social no mundo inteiro. Três ideias saem dali:
Classe não é uma coisa, é uma relação. Não existe "a classe operária" como grupo definido pela renda ou pela ocupação. A classe acontece quando pessoas, a partir de experiências comuns, percebem e articulam interesses opostos aos de outras.
A classe se faz. Não é produzida automaticamente pela indústria: é construída, com agência, por homens e mulheres concretos — e a cultura (religião, tradição, direito costumeiro) participa dessa construção tanto quanto a fábrica.
História vista de baixo. Thompson fala em resgatar da condescendência da posteridade os derrotados e esquecidos: o tecelão de meias, o artesão arruinado, o seguidor de seitas. A derrota deles não os torna irrelevantes.
Em Costumes em comum e no ensaio sobre a economia moral da multidão (1971), Thompson mostra que os motins de fome do século XVIII não eram reação cega à barriga vazia: obedeciam a uma noção legítima e compartilhada de preço justo e de obrigação dos poderosos. O motim tinha regra, alvo e limite.
Em A miséria da teoria (1978), ele ataca duramente o marxismo estruturalista de Louis Althusser, que tratava os sujeitos como suportes de estruturas. A polêmica é o ponto alto da disputa entre estrutura e agência, que atravessa toda a teoria da história.
Experiência: o conceito-chave
O termo que faz a ponte no vocabulário de Thompson é experiência. As condições materiais existem e pesam — ninguém escolhe nascer numa família de tecelões arruinados. Mas elas são vividas, e são vividas através de uma cultura: valores, memória, religião, noções de justiça.
É por isso que duas populações em situação econômica parecida reagem de maneiras diferentes. A economia não determina a resposta; ela estabelece o problema que a cultura vai interpretar.
Guarde este conceito: ele é a resposta mais influente ao mecanicismo, e aparece em quase toda a boa história social brasileira posterior aos anos 1980.
Hobsbawm e as grandes sínteses
Eric Hobsbawm trabalhou na escala oposta à da micro-história: a série sobre a era das revoluções, do capital, dos impérios e dos extremos cobre de 1789 ao fim do século XX, articulando economia, política e cultura em um só fio.
Com Terence Ranger, organizou A invenção das tradições (1983), que mostra como costumes apresentados como imemoriais — uniformes, rituais de monarquia, símbolos nacionais — foram frequentemente criados em passado recente, para atender necessidade política do momento. É uma das ferramentas mais úteis que a historiografia oferece a quem estuda identidade nacional, folclore ou patrimônio.
Christopher Hill e a revolução inglesa
Hill estudou o século XVII inglês olhando não para o Parlamento, mas para os grupos radicais derrotados — levellers, diggers, ranters. O mundo de ponta-cabeça (1972) trata das ideias de quem perdeu, partindo do princípio de que elas informam sobre o que era pensável naquele momento.
Aplicando ao Brasil
A influência de Thompson na historiografia brasileira é direta e visível. A partir dos anos 1980, a história da escravidão deixou de tratar a pessoa escravizada como objeto passivo — a tese da "coisificação" — e passou a investigar as margens de ação dentro do cativeiro: formação de família, roça própria, acesso à justiça, negociação de alforria, fuga, revolta.
Pergunte-se, ao ler qualquer trabalho de história social: a pessoa estudada aparece como sujeito que decide dentro de constrangimentos, ou como mero efeito de uma estrutura? A resposta localiza o autor no debate deste módulo.
Módulo 4 de 5
Micro-história, história cultural e o giro linguístico
Nos anos 1970 e 1980 a disciplina passa por uma crise produtiva. Reduz-se a escala de observação, questiona-se a ideia de que o texto histórico apenas espelha o real, e a cultura deixa de ser enfeite para virar objeto central.
Micro-história: reduzir a escala
Surgida na Itália em torno da revista Quaderni Storici, a micro-história propõe reduzir a escala de observação — não para estudar coisas pequenas, mas para enxergar o que a escala grande apaga.
A analogia usual é a do microscópio: ao ampliar um pedaço de tecido, aparecem relações que a vista de longe não mostrava. Numa pesquisa em escala nacional, "o camponês do século XVII" é uma média estatística; na escala de uma aldeia, aparecem pessoas com nome, parentes, dívidas e estratégias.
Carlo Ginzburg publicou em 1976 O queijo e os vermes, reconstituindo o universo mental de Menocchio, moleiro do Friuli processado pela Inquisição no século XVI por sustentar uma cosmogonia própria. O livro mostra uma cultura popular que não é simples resíduo degradado da cultura letrada: há circularidade entre as duas.
Giovanni Levi, em A herança imaterial (1985), reconstrói, a partir de um pároco exorcista do Piemonte, o mercado de terras e as estratégias familiares de uma aldeia — e mostra que a racionalidade dos camponeses era limitada pela informação disponível, não pela ignorância.
O "excepcional normal"
A objeção óbvia à micro-história é: se o caso é excepcional, o que ele ensina sobre o geral?
A resposta, formulada por Edoardo Grendi, é a noção de excepcional normal. Casos excepcionais são, muitas vezes, os únicos documentados — ninguém registra o cotidiano que corre bem; registra-se o conflito, o crime, o processo. Esse documento excepcional ilumina normas que, por serem óbvias para todos, nunca foram escritas.
Um processo-crime por injúria entre vizinhos é um caso extremo; ao mesmo tempo, é a melhor janela existente sobre o que aquelas pessoas consideravam honra, e o que tolerava uma vizinhança.
Em Sinais: raízes de um paradigma indiciário (1979), Ginzburg propõe que as ciências humanas operam por um modelo diferente do das ciências exatas: trabalham com indícios — o detalhe marginal, o sintoma, a pincelada involuntária — para reconstituir aquilo que não pode ser observado nem repetido em laboratório. Ele aproxima o método do crítico de arte Morelli, de Freud e de Sherlock Holmes.
História cultural: Chartier e Darnton
Roger Chartier organiza a história cultural em torno de três conceitos que vale decorar:
Conceito
O que designa
Representação
As classificações e imagens pelas quais os grupos constroem e disputam a realidade social
Prática
O que as pessoas efetivamente fazem — ler em voz alta, ler em silêncio, rezar, festejar
Apropriação
O uso que cada grupo faz do que recebe: um mesmo livro é lido de modos diferentes por públicos diferentes
Chartier critica a ideia de "cultura popular" como um conjunto dado e separado. Para ele, o que existe são usos diferenciados de materiais que circulam entre os grupos — a diferença está na apropriação, não no objeto.
Robert Darnton, em O grande massacre de gatos (1984), parte de um episódio incompreensível para nós — aprendizes de tipografia parisienses matando gatos e achando aquilo hilário — e usa justamente a incompreensão como ponto de partida: quando uma piada do passado não tem graça, é sinal de que se encontrou a entrada para outro sistema de sentido.
O giro linguístico e Hayden White
Em Meta-história (1973), Hayden White analisa os grandes historiadores do século XIX como se analisam obras literárias e conclui que o texto histórico é estruturado por recursos narrativos — a escolha de uma trama (tragédia, comédia, romance, sátira), de figuras de linguagem, de um modo de argumentar.
A consequência polêmica: se a forma narrativa não vem dos documentos, mas é imposta a eles pelo historiador, qual é exatamente a diferença entre história e ficção?
Onde a discussão parou
A posição majoritária hoje aceita a parte forte do argumento e recusa a conclusão relativista.
Aceita-se que: o historiador seleciona, ordena e dá forma; a narrativa não brota sozinha dos documentos; escrever história é também um ato de escrita, com escolhas estéticas e políticas.
Recusa-se que: daí decorra que toda versão vale o mesmo. A história tem restrição documental. Não se pode afirmar o que a documentação desmente, e qualquer afirmação precisa ser verificável por outro pesquisador nas mesmas fontes. É por isso que o negacionismo — sobre o Holocausto, sobre a ditadura brasileira, sobre a escravidão — não é "outra interpretação": é afirmação contra as provas, e se refuta no terreno da prova.
O debate sobre os limites da representação, provocado pelo negacionismo do Holocausto, foi o que obrigou a disciplina a formular isso com clareza.
Koselleck e a história dos conceitos
Reinhart Koselleck trouxe duas categorias de análise do tempo histórico que se tornaram instrumento de trabalho corrente:
Espaço de experiência — o passado presente, aquilo que foi vivido e incorporado, e que informa o modo de agir.
Horizonte de expectativa — o futuro presente, o que se espera, teme ou planeja.
A tese é que a modernidade se caracteriza pelo afastamento crescente entre os dois: até certo ponto, esperava-se do futuro basicamente a repetição do que a experiência ensinara; a partir do fim do século XVIII, passa-se a esperar do futuro algo diferente do passado — nasce a ideia de progresso, e com ela a de que a história tem direção.
Koselleck é também o nome da história dos conceitos: palavras como "revolução", "povo", "democracia", "cidadão" não são rótulos estáveis; elas têm história, e mudar o significado delas é parte da disputa política. Para quem pesquisa, isso é uma advertência prática — antes de usar um conceito, verifique o que ele significava no período estudado.
Outras aberturas do período
História das mulheres e gênero. Joan Scott, em 1986, propõe gênero como categoria útil de análise histórica: não um tema a mais, mas uma chave que reorganiza a leitura do poder em qualquer objeto.
Estudos pós-coloniais e subalternos. Edward Said e Orientalismo (1978); o grupo indiano de estudos subalternos; a crítica à Europa como medida universal do que é história.
História do tempo presente. A criação do Instituto de História do Tempo Presente na França, em 1978, legitima pesquisar períodos cujos protagonistas ainda estão vivos — com o desafio adicional da memória disputada e da fonte oral.
Módulo 5 de 5
A historiografia brasileira
A história do Brasil também tem uma história: quem a escreveu, com que interesses, e o que cada geração resolveu ver e não ver. Conhecer esse percurso é o que permite ler criticamente o que ainda circula em livro didático e em discurso público.
O IHGB e o programa de 1838
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi fundado no Rio de Janeiro em 1838, sob patrocínio imperial. Sua tarefa era explícita: construir a narrativa de uma nação recém-independente, recolhendo documentos e definindo o que seria a história nacional.
Em 1845, o naturalista alemão Carl Friedrich Philipp von Martius venceu o concurso do Instituto com a dissertação Como se deve escrever a história do Brasil. A proposta: a nação brasileira nasceria da confluência de três raças — a portuguesa, a indígena e a africana —, com primazia atribuída ao elemento português, responsável por civilizar as demais.
Esse texto é o documento fundador do mito das três raças, que atravessa o século XX e chega até hoje em versões escolares. Lido criticamente, ele mostra como uma narrativa de harmonia pode organizar a desigualdade: as três contribuições são declaradas, mas em hierarquia.
Varnhagen e Capistrano
Francisco Adolfo de Varnhagen publicou a História Geral do Brasil (1854–1857), obra monumental de pesquisa documental em arquivos portugueses. Sua perspectiva é a do Estado e da colonização portuguesa; trata as populações indígenas como obstáculo e a escravidão como dado. É fonte indispensável e interpretação datada — e as duas coisas ao mesmo tempo.
Capistrano de Abreu, nos Capítulos de História Colonial (1907), muda o eixo: desloca a atenção do litoral e da administração para o sertão, o povoamento, a pecuária, os caminhos do interior. É a primeira grande tentativa de explicar o Brasil pelo que acontecia longe dos palácios.
Os anos 1930: as grandes interpretações
Obra
Tese central
O que se critica hoje
Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre (1933)
A colonização portuguesa teria produzido uma sociedade de intensa mestiçagem, articulada na intimidade da casa patriarcal
Suavizou a violência da escravidão e alimentou a ideia de democracia racial
Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda (1936)
A herança ibérica e rural teria produzido o "homem cordial", que confunde o público com o privado e governa pela afeição
O conceito de cordialidade é frequentemente mal citado como sinônimo de gentileza
Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado Júnior (1942)
O "sentido da colonização" foi produzir para o mercado externo; a estrutura interna se organiza em função disso
A ênfase na determinação externa deixa pouco espaço para dinâmicas internas, que pesquisas posteriores demonstraram
A universidade e a profissionalização
A criação da Universidade de São Paulo em 1934, com professores franceses contratados para a faculdade de filosofia, inaugura a formação sistemática de historiadores no país. A ANPUH — Associação Nacional de História foi fundada em 1961 e organiza desde então os encontros nacionais e regionais da área; a Revista Brasileira de História, criada em 1981, é um dos periódicos de referência.
Nos anos 1960, Florestan Fernandes publica A integração do negro na sociedade de classes (1964), que desmonta de frente a tese da democracia racial: mostra que a abolição lançou a população negra na competição de mercado sem nenhuma política de incorporação, e que o preconceito operava justamente negando-se a existir.
A virada dos anos 1980: escravidão e agência
A influência de Thompson e da história social inglesa reorganiza a história da escravidão no Brasil. A historiografia anterior discutia se o escravizado era "coisa" ou se havia espaço de humanidade; a nova geração foi às fontes investigar o que as pessoas escravizadas efetivamente fizeram.
João José Reis, em Rebelião escrava no Brasil (1986), reconstitui a revolta dos malês, em Salvador, 1835 — mostrando organização, letramento em árabe e projeto político.
Sidney Chalhoub, em Visões da liberdade (1990), lê processos judiciais do Rio de Janeiro e mostra pessoas escravizadas acionando a justiça e negociando dentro do cativeiro.
Pesquisas sobre família escrava, roças próprias, alforrias e quilombos demonstram que havia estratégia onde se enxergava apenas submissão ou revolta.
A consequência para o ensino é direta: a frase "os escravos não tinham direitos e nada podiam fazer" é historiograficamente insustentável há quarenta anos, e continua sendo repetida.
História do tempo presente e memória da ditadura
Com a redemocratização, consolidou-se no Brasil a história do tempo presente, dedicada à ditadura civil-militar, aos movimentos sociais e à transição. A Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2011 e com relatório entregue em 2014, produziu documentação e colocou a disciplina diante de um problema que é também público: a diferença entre memória — seletiva, afetiva, legítima enquanto experiência — e história, que precisa confrontar versões com documentos e assumir o ônus da prova.
Exercício de leitura historiográfica
Diante de qualquer livro ou artigo de história, responda por escrito:
Quando foi escrito e por quem? Qual era o contexto político e acadêmico do autor?
Qual é a pergunta? Se o texto não deixa a pergunta clara, qual pergunta ele responde de fato?
Com que fontes? Quais são, quantas, de que natureza — e quais ele deixou de usar?
De que tradição ele vem? Metódica, Annales, marxista, micro-história, história cultural, ou mistura?
Quem são os sujeitos? Quem age e quem apenas aparece como cenário?
Com quem ele discute? Toda tese se afirma contra outra; identificar o adversário é entender o texto.
Essas seis perguntas são, na prática, um resumo de todo o curso — e são o que uma banca espera que você saiba fazer.
Para saber mais
Marc Bloch, Apologia da História, ou o ofício de historiador; e Lucien Febvre, Combates pela história.
Peter Burke, A Escola dos Annales e O que é história cultural? — as melhores introduções curtas.
E. P. Thompson, A formação da classe operária inglesa e Costumes em comum.
Carlo Ginzburg, O queijo e os vermes e Mitos, emblemas, sinais.
Roger Chartier, A história cultural: entre práticas e representações.
Reinhart Koselleck, Futuro passado.
Eric Hobsbawm e Terence Ranger, A invenção das tradições.
Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil; Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo; Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes.
João José Reis, Rebelião escrava no Brasil; Sidney Chalhoub, Visões da liberdade.
ANPUH — Associação Nacional de História: anais dos encontros e a Revista Brasileira de História.
Cursos "Metodologia da Pesquisa Histórica", "Ensino de História: BNCC e sala de aula" e "História da África e Cultura Afro-Brasileira", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.