As cinco etapas pela Resolução COFEN 736/2024, diagnósticos, prescrição, evolução e linguagens padronizadas: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
SAE e Processo de Enfermagem: o que é cada coisa
Os dois termos são usados como sinônimos no dia a dia, e não são. A Resolução COFEN 736/2024 separa os dois explicitamente, e entender a diferença é o que faz o resto do curso encaixar.
SAE
Processo de Enfermagem
O que é
A organização do trabalho de enfermagem no serviço
As cinco etapas, do levantamento de dados à evolução
Analogia
A estrutura e as regras do serviço
O raciocínio clínico aplicado a este paciente, agora
Em uma frase: a SAE organiza o serviço para que o Processo de Enfermagem possa acontecer. Serviço com impresso bonito e sem raciocínio clínico tem SAE no papel e não tem Processo de Enfermagem; enfermeiro que raciocina sozinho, sem estrutura, faz PE apesar da instituição.
A base legal
Lei 7.498/1986 — estabelece como privativos do enfermeiro a consulta de enfermagem e a prescrição da assistência de enfermagem.
Resolução COFEN 736/2024 — dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todos os contextos de cuidado, atualizando a Resolução 358/2009. Diferencia SAE de PE, define responsabilidades de enfermeiros, técnicos e auxiliares e trata da documentação.
O que mudou com a Resolução 736/2024
Boa parte do material que circula — apostila, resumo, vídeo — ainda traz a nomenclatura antiga. Vale saber o que mudou, porque é exatamente o que cai em prova agora.
Etapa
Nome anterior
Nome atual
1ª
Histórico ou coleta de dados
Avaliação de Enfermagem
2ª
Diagnóstico de Enfermagem
Diagnóstico de Enfermagem
3ª
Planejamento
Planejamento
4ª
Implementação
Implementação
5ª
Avaliação de Enfermagem
Evolução de Enfermagem
Repare na troca mais confusa: o termo "avaliação" mudou de lugar. Antes era o nome da quinta etapa; agora é o nome da primeira. Quem estudou pela redação antiga precisa reaprender esse ponto, e quem está estudando agora deve desconfiar de material que não cite a 736/2024.
Os demais pontos que a resolução firma:
Diagnóstico e prescrição de enfermagem são privativos do enfermeiro.
Técnicos e auxiliares participam da execução, implementam os cuidados prescritos e fazem as anotações de enfermagem, sob supervisão do enfermeiro.
O PE deve ser implementado em todos os contextos de cuidado — não só no hospital.
A documentação vai ao prontuário, físico ou eletrônico, com o enfermeiro registrando todas as etapas.
Por que isso importa na prática
O Processo de Enfermagem é o que diferencia executar tarefa de prestar cuidado. Sem ele, a enfermagem fica reduzida a cumprir prescrição médica e checar horário. Com ele, a profissão exerce o que lhe é próprio: identificar as respostas humanas a um problema de saúde, decidir o que fazer a respeito e avaliar o resultado.
É também o que sustenta a enfermagem juridicamente, alimenta indicadores, permite dimensionar pessoal e produz o registro que defende a equipe.
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Etapas 1 e 2: Avaliação e Diagnóstico
Etapa 1 — Avaliação de Enfermagem
É o levantamento organizado de informações sobre a pessoa, a família e a coletividade. Três fontes, que se somam:
Entrevista — motivo da internação, história da doença e de vida, hábitos, medicamentos em uso, alergias, apoio familiar, o que a pessoa entende do próprio quadro e o que a preocupa.
Exame físico — com as quatro técnicas: inspeção, palpação, percussão e ausculta. No abdome, a ordem muda: inspeção, ausculta, percussão e palpação, porque palpar antes altera os ruídos.
Fontes secundárias — prontuário, exames, relato da família, informações da equipe, encaminhamentos.
O exame físico pode ser organizado no sentido cefalocaudal, da cabeça aos pés, ou por sistemas. O importante é ter um roteiro fixo, para não esquecer partes.
Dois cuidados que mudam a qualidade da coleta: perguntar aberto antes de perguntar fechado, e ouvir sem interromper os primeiros segundos. A informação mais útil costuma vir da fala espontânea, não do formulário.
Etapa 2 — Diagnóstico de Enfermagem
É o julgamento clínico do enfermeiro sobre as respostas da pessoa aos problemas de saúde e aos processos de vida. É privativo do enfermeiro e é o que fundamenta a escolha das intervenções.
Diagnóstico de enfermagem não é diagnóstico médico
A confusão é frequente e a diferença é de objeto.
Diagnóstico médico
Diagnóstico de enfermagem
Foca em
A doença
A resposta da pessoa à doença ou ao processo de vida
Exemplo
Acidente vascular cerebral
Mobilidade física prejudicada; risco de aspiração; déficit no autocuidado para banho
Muda
Em geral permanece
Muda conforme a pessoa evolui
Dois pacientes com o mesmo diagnóstico médico podem ter diagnósticos de enfermagem completamente diferentes — e é por isso que o cuidado não é igual para todo mundo com a mesma doença.
Como o diagnóstico é enunciado
A taxonomia mais usada no Brasil é a da NANDA-I, e há também a CIPE, Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem, adotada por muitos serviços e pela atenção básica.
Na NANDA-I, os tipos mais usados:
Com foco no problema — enuncia-se com o título, os fatores relacionados (a causa) e as características definidoras (os sinais e sintomas observados).
De risco — a pessoa ainda não apresenta o problema, mas é vulnerável. Tem título e fatores de risco, e não tem características definidoras, porque o problema não existe ainda.
De promoção da saúde — disposição para melhorar algo que já vai bem.
A estrutura clássica de redação é o PES: Problema, Etiologia e Sinais e sintomas, ligados por "relacionado a" e "evidenciado por".
Exemplo com foco no problema: "Mobilidade física prejudicada relacionada a força muscular diminuída evidenciada por incapacidade de levantar-se sem auxílio e amplitude de movimento reduzida à direita."
Exemplo de risco: "Risco de queda relacionado a idade avançada, uso de anti-hipertensivo e marcha instável." Repare que não há "evidenciado por" — porque a queda ainda não aconteceu, e se tivesse acontecido o diagnóstico seria outro.
Erro comum em prova e em prontuário: escrever "evidenciado por" num diagnóstico de risco. Se há evidência do problema, ele deixou de ser risco.
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Etapas 3 e 4: Planejamento e Implementação
Etapa 3 — Planejamento
Definidos os diagnósticos, o enfermeiro estabelece os resultados esperados e as intervenções — é aqui que nasce a prescrição de enfermagem, privativa do enfermeiro.
Duas decisões compõem a etapa:
Priorizar. Nem tudo se resolve ao mesmo tempo. Vem primeiro o que ameaça a vida, depois o que ameaça a segurança, depois o que afeta a funcionalidade e o conforto. Um critério prático é a hierarquia de necessidades: risco de aspiração vem antes de déficit de autocuidado para banho.
Definir resultados esperados — o que se espera que mude, em que medida e em quanto tempo. Resultado bem escrito é observável e mensurável: "deambular do leito ao banheiro com auxílio de uma pessoa em 48 horas" é verificável; "melhorar a mobilidade" não é.
Como se escreve uma prescrição de enfermagem
Cada item precisa responder a quatro perguntas: o quê, como, quando e quem. Compare:
Prescrição fraca
Prescrição que funciona
"Cuidados com a pele"
"Mudança de decúbito a cada 2 horas, alternando decúbitos laterais e dorsal, com registro em impresso próprio"
"Observar sinais vitais"
"Verificar sinais vitais de 4 em 4 horas e comunicar o enfermeiro se PAS menor que 90 mmHg ou FR maior que 24 irpm"
"Estimular hidratação"
"Oferecer 150 mL de água a cada 2 horas, no período diurno, e registrar a aceitação"
"Orientar o paciente"
"Orientar a família sobre posicionamento no leito, com demonstração, e registrar a compreensão"
Toda prescrição precisa ter data, horário, assinatura e número do COREN do enfermeiro, e deve ser revista conforme a evolução — prescrição copiada do dia anterior por semanas não reflete o paciente e é achado clássico de auditoria.
Etapa 4 — Implementação
É a execução do que foi planejado, e é a etapa em que toda a equipe atua: o enfermeiro executa o que lhe é privativo e supervisiona; técnicos e auxiliares implementam os cuidados prescritos e registram o que fizeram.
Na prática, implementar bem exige:
Conferir a prescrição antes de executar e esclarecer o que não estiver claro.
Executar no horário e conforme o descrito.
Observar a resposta do paciente durante e após o cuidado.
Registrar o que foi feito, o que não foi feito e por quê, e o que se observou.
Comunicar ao enfermeiro qualquer alteração ou dificuldade.
Cuidado prescrito e não realizado precisa aparecer no registro, com o motivo. Recusa do paciente, instabilidade, falta de material e exame fora da unidade são justificativas legítimas — a omissão do registro é que não é.
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Etapa 5: Evolução de Enfermagem e documentação
A quinta etapa
A Evolução de Enfermagem é o processo deliberado, sistemático e contínuo de verificar se o que foi planejado deu certo. Ela é privativa do enfermeiro e fecha o ciclo — que, na prática, recomeça.
Três perguntas estruturam a evolução:
O resultado esperado foi alcançado? Totalmente, em parte ou não.
Por quê? O diagnóstico estava correto? A intervenção era adequada? Foi executada como prescrito?
O que muda agora? Manter, ajustar ou encerrar o diagnóstico; manter ou mudar a prescrição.
É aqui que o Processo de Enfermagem deixa de ser um formulário e vira raciocínio: um diagnóstico que não se resolve em dias de intervenção correta provavelmente estava mal formulado, ou a causa real é outra.
Anotação, evolução e prescrição: quem faz o quê
Registro
Quem faz
O que contém
Anotação de enfermagem
Toda a equipe
O que foi observado e o que foi feito, no momento em que ocorreu
Evolução de enfermagem
Privativa do enfermeiro
Análise do estado do paciente e da resposta ao cuidado
Diagnóstico de enfermagem
Privativo do enfermeiro
Julgamento clínico sobre as respostas da pessoa
Prescrição de enfermagem
Privativa do enfermeiro
Os cuidados a serem realizados, com o como e o quando
É a divisão que mais gera dúvida em serviço e a que mais aparece em processo ético. Técnico que evolui paciente ou prescreve cuidado está exercendo atividade privativa de outra categoria — e responde por isso, ainda que a chefia tenha mandado.
Documentar bem
Todas as etapas vão ao prontuário, físico ou eletrônico. Registro em caderno próprio, agenda ou "papelzinho" não é documentação.
Cada registro leva data, hora, assinatura e número do COREN.
Use termos descritivos e verificáveis, não impressões: "ferida operatória com bordas aproximadas, sem secreção, sem sinais flogísticos" vale mais que "ferida com bom aspecto".
Mantenha a coerência interna: diagnóstico que aparece na avaliação precisa ter intervenção correspondente na prescrição e desfecho na evolução. Auditoria procura exatamente esse encaixe.
Em prontuário eletrônico, senha é pessoal e intransferível, e o registro leva o nome de quem está logado.
Por que a SAE emperra nos serviços
Vale reconhecer os obstáculos reais, porque culpa individual não resolve nenhum deles:
Dimensionamento insuficiente — não há tempo para examinar e raciocinar com proporção inadequada de pessoal.
Impresso ruim, que transforma a etapa em preenchimento de quadradinho.
Formação frágil em raciocínio diagnóstico, que se resolve com educação permanente, não com cobrança.
Falta de informatização ou sistema que não conversa com o trabalho real.
Cultura do "não dá tempo", que é consequência dos itens anteriores, e não causa.
O caminho que costuma funcionar é começar pequeno: implantar bem em uma unidade, com impresso simples e um conjunto reduzido de diagnósticos mais frequentes daquele perfil de paciente, medir e mostrar resultado. SAE implantada por portaria em todo o hospital de uma vez, sem estrutura, vira papel preenchido às pressas no fim do plantão.
Módulo 5 de 5
Linguagens padronizadas e a SAE no dia a dia
Por que padronizar a linguagem
Se cada enfermeiro descreve o mesmo fenômeno com palavras próprias, não há como comparar, pesquisar, gerar indicador nem informatizar. As classificações existem para que "mobilidade física prejudicada" signifique a mesma coisa em qualquer serviço.
Sistema
O que classifica
NANDA-I
Diagnósticos de enfermagem, organizados em domínios e classes
NIC
Intervenções de enfermagem
NOC
Resultados esperados, com indicadores e escalas de medida
CIPE
Classificação internacional unificada, com termos para diagnósticos, intervenções e resultados
NANDA-I, NIC e NOC costumam ser usados em conjunto — a combinação é conhecida como ligações NNN, ligando diagnóstico, intervenção e resultado. A CIPE é frequente na atenção básica e na saúde coletiva, e tem a vantagem de ser um sistema único.
Nenhuma classificação substitui o raciocínio: elas padronizam o nome, não a decisão. Escolher diagnóstico pela lista, sem relacionar aos dados coletados, é o uso errado da ferramenta — e produz prontuários iguais para pacientes diferentes.
Um caso, do começo ao fim
Situação. Senhora de 78 anos, internada após fratura de fêmur, segundo dia de pós-operatório. Refere dor em região operada, nota 7 de 10. Permanece no leito, não consegue mudar de posição sozinha. Pele íntegra, com hiperemia não branqueável em região sacral. Ingere pouco líquido. Mora com a filha, que a acompanha.
1. Avaliação de Enfermagem. Dados da entrevista, do exame físico — inclusive a inspeção da pele que encontrou a hiperemia sacral — e do prontuário. Aplicação de escala de dor e de escala de risco para lesão por pressão.
2. Diagnósticos, priorizados:
Dor aguda relacionada a procedimento cirúrgico, evidenciada por relato verbal de dor nota 7 e postura antálgica.
Mobilidade física prejudicada relacionada a dor e a prejuízo musculoesquelético, evidenciada por incapacidade de mudar de decúbito sem auxílio.
Risco de lesão por pressão relacionado a imobilidade, idade avançada e hidratação reduzida.
3. Planejamento. Resultados esperados: referir dor igual ou menor que 3 em 24 horas; realizar mudança de decúbito com auxílio de uma pessoa em 48 horas; manter pele íntegra, sem progressão da hiperemia sacral, durante a internação. Prescrição: avaliar dor a cada 4 horas com escala numérica e antes e depois do analgésico; mudança de decúbito a cada 2 horas com registro; inspeção da pele a cada turno, com atenção à região sacral; oferecer 150 mL de líquido a cada 2 horas no período diurno e registrar aceitação; orientar a filha sobre posicionamento, com demonstração.
4. Implementação. A equipe executa, observa a resposta e registra — inclusive o que não foi feito e por quê.
5. Evolução de Enfermagem. Em 24 horas: dor referida em 3, resultado alcançado, mantém-se a prescrição de avaliação. Mudança de decúbito sendo realizada, hiperemia sacral sem progressão, resultado parcialmente alcançado. Ingestão hídrica abaixo do previsto, com aceitação de cerca de metade do oferecido — o que leva a investigar a causa e ajustar a intervenção, e não simplesmente a repetir a prescrição.
Repare no encadeamento: cada diagnóstico veio de um dado da avaliação, cada prescrição responde a um diagnóstico, e cada evolução fecha um resultado esperado. É esse encaixe que a auditoria procura — e é ele que faz o cuidado funcionar.
A SAE fora do hospital
A Resolução 736/2024 é explícita quanto a isso: o Processo de Enfermagem deve ser implementado em todos os contextos. Na atenção básica, ele aparece na consulta de enfermagem, no acompanhamento de hipertensos e diabéticos, no pré-natal de risco habitual e na visita domiciliar. Em saúde mental, em home care, na saúde do trabalhador e na escola, vale o mesmo método, com instrumentos adaptados.
E a consulta de enfermagem, privativa do enfermeiro desde a Lei 7.498/1986, é o espaço por excelência do Processo de Enfermagem fora do leito.
Para saber mais
Resolução COFEN 736/2024 — Processo de Enfermagem; Lei 7.498/1986, art. 11.
NANDA International — diagnósticos de enfermagem, definições e classificação, na edição vigente.
Classificação das Intervenções (NIC) e dos Resultados (NOC) de Enfermagem; CIPE, do Conselho Internacional de Enfermeiros.
Pareceres e cartilhas do COFEN e dos CORENs sobre implantação da SAE.
Cursos "Fundamentos, Ética e Legislação em Enfermagem", "Sinais Vitais e Avaliação do Paciente" e "Curativos e Lesões de Pele", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.