Pesquisa com dados reais, tabelas e gráficos, média, moda e mediana, gráfico enganoso e noções de probabilidade: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
Fazer uma pesquisa, do começo
Estatística na escola costuma começar errado: pelo gráfico. O gráfico é o fim do processo. Começa-se por uma pergunta que valha a pena responder com dados.
As etapas
Pergunta: o que queremos saber? ("Quanto tempo de tela os alunos desta escola usam por dia?")
População e amostra: de quem falamos, e quem vamos conseguir ouvir.
Instrumento: o que exatamente se pergunta, e com quais opções de resposta.
Coleta: registro organizado, com data.
Organização: tabela de frequência.
Representação: o gráfico adequado ao tipo de dado.
Conclusão: o que os dados permitem — e o que não permitem — afirmar.
O passo 7 é o que falta em quase toda atividade escolar de estatística. Sem ele, a turma produz um gráfico bonito e não responde a pergunta inicial.
População e amostra
População é o conjunto todo sobre o qual se quer concluir; amostra é a parte que se observa. A amostra precisa ser representativa, e tamanho não substitui representatividade: dez mil respostas colhidas só entre seguidores de um perfil dizem muito sobre aquele perfil e pouco sobre a população.
Esse é o conceito de viés, e vale dar exemplos escolares: perguntar sobre merenda só na fila da cantina, perguntar sobre esporte só no time, fazer formulário online numa comunidade sem internet em casa.
Tipos de variável
Tipo
O que é
Exemplo
Qualitativa nominal
Categoria sem ordem
Cor preferida, bairro
Qualitativa ordinal
Categoria com ordem
Escolaridade, nível de satisfação
Quantitativa discreta
Contagem, valores inteiros
Número de irmãos
Quantitativa contínua
Medida, admite decimais
Altura, tempo, massa
O tipo de variável decide o gráfico e a medida que fazem sentido. Calcular a média de "cor preferida" não significa nada, ainda que o computador aceite se as cores forem numeradas.
Escrever um bom questionário
Uma pergunta por item, sem "e" no meio.
Opções que não se sobrepõem e cobrem todos os casos.
Sem pergunta que já sugere a resposta ("você não concorda que…").
Com faixas claras quando for quantidade: "de 1 a 2 horas", "mais de 2 até 4 horas".
Respeitando o sigilo: pesquisa escolar com dado pessoal não circula com nome, e a divulgação é sempre agregada.
Atividade: a pesquisa da turma
Deixe a turma escolher a pergunta — meio de transporte até a escola, tempo de sono, fruta preferida, tempo de tela. Faça a coleta em uma aula e exija as sete etapas, inclusive o relato final em três frases: o que perguntamos, o que achamos, e o que não podemos concluir com esses dados.
Módulo 2 de 5
Organizar e representar dados
Cada tipo de gráfico responde a uma pergunta. Escolher errado não é questão estética: muda o que o leitor conclui.
Tabela de frequência
Meio de transporte
Frequência
Frequência relativa
A pé
12
40,0%
Ônibus
8
26,7%
Carro
6
20,0%
Bicicleta
4
13,3%
Total
30
100%
A frequência absoluta é a contagem; a relativa é a parte do total, em fração ou porcentagem. Toda tabela precisa de título, da fonte e do total — a linha de total é o que permite ao leitor conferir.
Qual gráfico usar
Gráfico
Serve para
Cuidado
Barras ou colunas
Comparar categorias
O eixo deve começar em zero
Linhas
Mostrar evolução no tempo
Só faz sentido se o eixo horizontal for tempo
Setores (pizza)
Mostrar partes de um mesmo total
As partes precisam somar 100%; ruim com muitas categorias
Pictograma
Público amplo, leitura rápida
Cada figura tem de valer sempre a mesma quantidade
Histograma
Distribuição de dados contínuos, em faixas
Não é o mesmo que gráfico de barras: as faixas são contíguas
O erro mais comum é usar setores onde o total não é um todo — por exemplo, numa pergunta de múltipla escolha em que cada pessoa marcou mais de uma opção. Nesse caso a soma passa de 100% e a pizza fica sem sentido; o certo é barras.
O que todo gráfico precisa ter
Título que diga o que está representado.
Eixos nomeados, com a unidade.
Escala regular, sem pulos.
Fonte e período dos dados.
Legenda, quando houver mais de uma série.
Faltando o período, o gráfico pode estar certo e ainda assim induzir a erro — dado de dois anos atrás lido como se fosse de hoje.
Planilha: o caminho mais curto
Qualquer planilha gratuita faz tabela de frequência e gráfico em poucos passos, e isso libera tempo para discutir o que o gráfico diz. Duas funções resolvem o módulo inteiro: CONT.SE (ou CONT.SES), para contar quantas vezes cada categoria aparece, e SOMA, para o total. Vale ensinar a turma a desconfiar do gráfico sugerido automaticamente pelo programa: ele escolhe pela aparência, não pelo tipo de dado.
Dado real é mais interessante
IBGE, portais de dados abertos do município e do estado, dados do Inep sobre a própria escola: material pronto, gratuito e sobre a realidade da turma. Uma tabela do censo com a população do bairro rende mais discussão do que qualquer dado inventado no livro.
Módulo 3 de 5
As medidas de tendência central
Três medidas respondem a "qual é o valor típico?" — e dão respostas diferentes. Saber qual usar é mais importante do que saber calcular as três.
O que é cada uma
Medida
Como se obtém
Boa para
Média
Soma dos valores ÷ quantidade
Dados sem valores extremos
Moda
O valor que mais aparece
Dados qualitativos e escolhas
Mediana
O valor do meio, com os dados em ordem
Dados com valores extremos
Detalhes que caem em prova: a mediana exige ordenar primeiro, e com quantidade par de dados é a média dos dois centrais. A moda pode não existir ou haver mais de uma. E a média pode ser um valor que não existe no conjunto — 2,5 filhos por família.
Quando a média engana
Considere os valores 1, 2, 2, 3 e 50.
Média: 58 ÷ 5 = 11,6
Mediana: 2
Moda: 2
A média de 11,6 não descreve nenhum dos valores: ela foi arrastada pelo 50. Esse é o caso clássico de valor extremo, e é o que acontece com salário. Num grupo de cinco pessoas que ganham R$ 2.000, R$ 2.200, R$ 2.400, R$ 2.500 e R$ 30.000, a média é R$ 7.820 e a mediana é R$ 2.400. É por isso que pesquisa séria sobre renda informa a mediana.
A pergunta para a turma: "qual dos dois números você usaria para dizer quanto se ganha nesse grupo, e por quê?". A resposta certa não é um número — é um argumento.
Dispersão: a medida que falta
Duas turmas com a mesma média 6,0 podem ser completamente diferentes: uma com todas as notas entre 5,5 e 6,5, outra com metade tirando 2 e metade tirando 10. A amplitude (maior valor menos menor valor) é a medida de dispersão mais simples e já mostra isso. Média sem nenhuma informação de dispersão é meia informação.
Média ponderada
Quando os valores têm pesos diferentes, multiplica-se cada um pelo seu peso, soma-se e divide-se pela soma dos pesos. É o que a escola faz na nota final quando a prova vale mais que o trabalho — e vale mostrar o cálculo à turma, porque muita reclamação de nota vem de supor média simples.
Atividade: três médias da turma
Com as alturas da turma, calcule média, moda e mediana. Depois acrescente ao conjunto uma altura fictícia absurda — 2,50 m — e recalcule as três. A média se move bastante; a mediana quase não. A conclusão aparece sem precisar ser anunciada: a mediana resiste a valor extremo.
Módulo 4 de 5
O gráfico que engana
Este é o módulo mais útil fora da escola. Gráfico não precisa ter número falso para enganar — basta a escala.
Os truques mais usados
Truque
Como funciona
Como detectar
Eixo truncado
Começar o eixo vertical em 90 em vez de 0, para uma diferença de 2% parecer enorme
Olhar onde o eixo começa
Escala irregular
Espaçar anos de forma desigual no eixo
Conferir se os intervalos são iguais
Pictograma com área
Dobrar altura e largura do boneco: a área quadruplica e a impressão é de 4 vezes mais
Comparar os números, não as figuras
Recorte de período
Mostrar só os meses que favorecem a tese
Procurar a série completa
Porcentagem sem base
"Aumento de 200%" sobre uma base de 3 casos
Pedir o número absoluto
Setores que passam de 100%
Pizza com respostas múltiplas
Somar as fatias
Correlação não é causa
Duas coisas podem crescer juntas sem que uma cause a outra. Venda de sorvete e casos de afogamento sobem no mesmo período — e a causa comum é o calor, não o sorvete. O nome disso é variável oculta, e desconfiar dela é a principal defesa contra manchete apressada.
Três perguntas que resolvem a maioria dos casos: há uma terceira causa possível?A ordem no tempo está certa?Pode ser coincidência numa amostra pequena?
Perguntas para fazer a qualquer dado divulgado
Quem produziu, e quem pagou pela pesquisa?
Quantas pessoas foram ouvidas, e como foram escolhidas?
Qual é a pergunta exata que foi feita?
Qual é o período dos dados?
É número absoluto ou porcentagem — e porcentagem de quê?
A margem de erro foi informada? Diferença dentro da margem não é diferença.
Esse roteiro vale para pesquisa eleitoral, propaganda de produto, número de desempenho escolar e postagem em rede social. É letramento estatístico no sentido literal: ler dado é uma habilidade de leitura.
Ética ao divulgar
Quem apresenta dados também tem obrigações: usar escala honesta, informar a fonte e o período, não omitir o que contraria a conclusão e não divulgar dado individual identificável. Em pesquisa escolar isso tem peso — a turma pode levantar informação sensível sem perceber, e o resultado se publica sempre de forma agregada.
Atividade de cinco minutos que rende o ano
Levar para a sala um gráfico publicado — de jornal, de propaganda, de rede social — e pedir que a turma encontre o problema antes de qualquer explicação. Eixo truncado é o mais frequente e o mais fácil de achar. Depois peça para redesenhar o mesmo dado com o eixo começando em zero, e comparar as duas impressões.
Módulo 5 de 5
Chance, e o que a intuição erra
Probabilidade é a parte da Matemática em que a intuição falha com mais frequência — e por isso é a que mais precisa de contagem cuidadosa.
O cálculo básico
Num experimento em que todos os resultados são igualmente prováveis, a probabilidade de um evento é o número de casos favoráveis dividido pelo total de casos possíveis. O conjunto de todos os resultados possíveis é o espaço amostral.
Experimento
Evento
Probabilidade
Um dado comum
Sair 6
1/6 ≈ 16,7%
Um dado comum
Sair número par
3/6 = 1/2 = 50%
Uma moeda
Sair cara
1/2
Duas moedas
Sair duas caras
1/4
Dois dados
A soma ser 7
6/36 = 1/6
A probabilidade vai de 0 (impossível) a 1 (certo), e pode ser escrita em fração, decimal ou porcentagem.
A condição que se esquece: casos igualmente prováveis
Por que duas moedas dão 1/4, e não 1/3? Porque o espaço amostral é cara-cara, cara-coroa, coroa-cara, coroa-coroa — quatro casos. Quem pensa "pode sair 0, 1 ou 2 caras, então é 1/3" esqueceu que "uma cara" acontece de duas maneiras e por isso é mais provável. Com dois dados é o mesmo raciocínio: a soma 7 sai de seis jeitos e a soma 12 de um só, e é por isso que 7 é a soma mais provável.
Esse é também o argumento contra a loteria "dos números bonitos": 1-2-3-4-5-6 tem exatamente a mesma chance de qualquer outra sequência, porque todas as combinações são igualmente prováveis.
A falácia do jogador
Moeda que deu cara cinco vezes seguidas não tem mais chance de dar coroa na sexta: a chance continua 1/2, porque a moeda não tem memória. O mesmo vale para dado, roleta e sorteio com reposição — são eventos independentes. Dizer "esse número está atrasado" é a falácia do jogador, e é a crença que sustenta boa parte do prejuízo com apostas.
Atenção à distinção: quando não há reposição, a chance muda de verdade. Tirar uma bola de uma urna e não devolver altera o total e o espaço amostral da segunda retirada.
Quando a escala desmonta a intuição
Acertar a Mega-Sena com uma aposta simples tem 1 chance em 50.063.860, porque é o número de combinações possíveis de 6 dezenas entre 60. Não é "difícil": é uma escala que a intuição não alcança. Vale fazer a conta com a turma em termos de tempo ou de dinheiro: apostando um jogo por dia, levaria mais de 100 mil anos para cobrir todas as combinações.
Este trecho tem uma função além da Matemática: é prevenção. Aposta é um produto desenhado para que a casa ganhe no longo prazo, e entender probabilidade é a melhor defesa contra a promessa de ganho fácil.
Probabilidade experimental e frequência
Jogar a moeda 10 vezes dificilmente dá 5 caras; jogar 500 vezes aproxima o resultado de 50%. Essa é a lei dos grandes números em versão escolar, e a atividade de acumular os lançamentos de toda a turma num só quadro mostra a aproximação acontecendo. É também o que liga probabilidade a estatística: a frequência observada se aproxima da probabilidade teórica quando há muitas repetições.
Para saber mais
BNCC, unidade temática Probabilidade e estatística, do 1º ao 9º ano — ela começa nos anos iniciais, com pesquisa e tabela simples.
IBGE Educa e os portais de dados abertos do seu município: dados reais, gratuitos e próximos da turma.
Materiais sobre letramento estatístico e sobre gráficos enganosos; há acervo bom e em português.
Cursos "Números e Operações", "Álgebra e Pensamento Algébrico", "Matemática Financeira na Prática" e "Google Drive e Planilhas na Nuvem", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.