Tipos de letra, abreviaturas, normas brasileiras de transcrição, datação, moedas e medidas e manuseio do original: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
Paleografia: ler o que parece ilegível
O momento mais frustrante da pesquisa histórica é abrir o livro de notas de 1790, ver a página inteira e não reconhecer uma única palavra. A sensação é de que falta um talento que você não tem. Não falta: falta treino, e o treino tem método. Este curso é esse método.
O que é paleografia
Paleografia é a disciplina que estuda as escritas antigas: como se traçavam as letras, como mudaram ao longo do tempo, e como se lê o que resultou disso. Ela tem duas irmãs com as quais trabalha junto:
Disciplina
Pergunta que ela responde
Paleografia
O que está escrito aqui?
Diplomática
Que tipo de documento é este, qual a sua estrutura e é autêntico?
Codicologia
Como o livro ou o códice foi fisicamente produzido?
Para quem pesquisa no Brasil, a paleografia relevante é a de documentos luso-brasileiros dos séculos XVI ao XIX. Documento do século XX já se lê com dificuldade de caligrafia pessoal, não de sistema gráfico.
A primeira coisa a aceitar
Você não vai ler a primeira linha. Vai ler a quarta, depois a segunda, depois voltar à primeira. A leitura paleográfica não é linear: é por reconhecimento de padrão.
O procedimento que funciona: encontre primeiro as palavras que você sabe que estão ali — datas, "Deus", "Senhor", "dito", "que", "de", nomes próprios repetidos. Com elas, você monta o alfabeto daquele escrivão. Depois volta e lê o resto com esse alfabeto na mão.
Cada escrivão tem uma mão própria. Decifrar um livro inteiro leva algumas horas de teimosia; o segundo livro do mesmo escrivão você lê correndo.
Os tipos de letra nos documentos luso-brasileiros
Não é preciso virar especialista em classificação. É preciso reconhecer três situações:
Tipo
Quando aparece
Como é
Gótica
Até o século XVI, sobretudo em documentos solenes e impressos antigos
Angulosa, letras quebradas, hastes verticais marcadas. Difícil, mas rara no acervo brasileiro
Cortesã e processual
Séculos XV a XVII, em documentos de chancelaria e judiciais
Muito cursiva, palavras emendadas, laçadas longas. É a mais difícil que você vai encontrar
Humanística e suas derivações
Do século XVI em diante, e domina os séculos XVIII e XIX
Redonda, mais separada, mais próxima da nossa. É a maior parte do acervo utilizável num TCC
A boa notícia para quem começa: a documentação mais usada em pesquisa local — registros paroquiais, livros de notas, inventários, atas de câmara dos séculos XVIII e XIX — está em geral em letra humanística cursiva, que é a mais acessível.
As armadilhas gráficas mais comuns
O s longo (ſ). Parece um f sem o traço horizontal completo. "Caſa" é casa, não cafa. É a maior fonte de erro de iniciante.
u e v se confundem. Não eram letras distintas no uso antigo: "vniuerso" é universo, "auer" é haver.
i e j, c e ç. Alternam sem regra fixa.
Letras dobradas onde hoje não há: "ella", "anno", "offício", "pello".
Falta de pontuação e de separação entre palavras, com tudo correndo junto.
Maiúsculas aleatórias, no meio da frase, sem relação com nome próprio.
Tinta ferrogálica corroendo o papel — o texto some ou atravessa a folha; às vezes se lê melhor pelo verso, contra a luz.
Roteiro de ataque a um documento novo
Olhe a página inteira antes de ler. Onde começa, onde termina, há assinatura, há margem com anotação?
Ache a data. Quase todo documento tem uma, e os números são o que você reconhece primeiro.
Ache os nomes próprios — repetidos, com maiúscula, muitas vezes no começo e no fim.
Monte o alfabeto do escrivão numa folha à parte: cada letra que você identificar com certeza, anote como ele a traça.
Leia em voz alta. O ouvido reconhece palavra que o olho não reconhece, sobretudo com grafia estranha.
Deixe lacunas. Marque [ilegível] e siga; o contexto das linhas seguintes costuma resolver.
Volte no dia seguinte. Com o alfabeto montado, o que parecia impossível vira leitura.
Módulo 2 de 5
Abreviaturas: a maior barreira
Escrever era caro e lento: papel importado, pena, tinta, tempo de escrivão. O resultado é que os documentos antigos são abreviados a um ponto que parece código. Dominar as abreviaturas é o que separa quem lê devagar de quem não lê.
Como funcionam
O estudo das abreviaturas chama-se braquigrafia. Os mecanismos são poucos e se repetem:
Tipo
Como funciona
Exemplo
Suspensão
Corta-se o fim da palavra
cap. para capitão
Contração
Tiram-se letras do meio, guardando começo e fim
qe para que, do para dito
Letras sobrescritas
A terminação sobe, pequena, acima da linha
Sr para Senhor, V.Mce para Vossa Mercê
Sinais e traços
Um traço sobre a letra indica letra omitida, em geral m ou n
hõe para homem, tãbem para também
Nota tironiana
Sinal parecido com 7 ou com &, usado para "e"
liga elementos de uma lista
As que você vai encontrar toda hora
Abreviatura
Leitura
Onde aparece
qe · qto · ql
que · quanto · qual
Em todo documento
do · da · dos
dito · dita · ditos
Para não repetir nome já citado
Sr · Sra · Sres
Senhor · Senhora · Senhores
Correspondência e petições
V.Mce · V.Sa · V.Exa
Vossa Mercê · Vossa Senhoria · Vossa Excelência
Tratamento em requerimentos
Pe · Rdo · Fr.
Padre · Reverendo · Frei
Registros paroquiais
N.Sra · N.Sr · Sto · Sta
Nossa Senhora · Nosso Senhor · Santo · Santa
Invocações e nomes
fo · fa
filho · filha
Batismos e inventários
legmo · natl
legítimo · natural
Batismos — distinção jurídica importante
Mel · Franco · Anto · Joze
Manuel · Francisco · Antônio · José
Nomes próprios mais comuns
Illmo · Exmo
Ilustríssimo · Excelentíssimo
Abertura de ofícios
rs · $ · Rs
réis
Valores
A abreviatura que mais engana
O traço sobre a vogal. Não é til e não é acento: indica que foi omitida uma consoante nasal, quase sempre m ou n.
Assim, hõe é homem, tãbem é também, bẽ é bem, cõ é com, qdo com traço é quando.
Quem não conhece esse sinal lê a palavra errada e, pior, lê com confiança — porque a palavra errada às vezes também faz sentido na frase. É o tipo de erro que atravessa a transcrição inteira sem ser notado.
Como montar o seu glossário
Não decore lista pronta: construa a sua, do acervo que você está lendo. Uma tabela simples, com três colunas — a forma como aparece, a leitura, e a folha onde você viu pela primeira vez.
Em duas semanas de trabalho num mesmo fundo, o glossário fica completo e você para de consultar. Ele é também um anexo valioso do TCC, porque serve a quem vier depois trabalhar no mesmo acervo.
Para consulta, existem dicionários de abreviaturas publicados e disponíveis em bibliotecas universitárias; vários arquivos públicos estaduais publicam manuais de paleografia gratuitos, com pranchas e exercícios.
Módulo 3 de 5
As normas brasileiras de transcrição
Ler é metade do trabalho. A outra metade é passar para o papel de um jeito que outra pessoa possa conferir — e para isso existe norma brasileira, resultado de encontros nacionais de normatização e divulgada pelo Arquivo Nacional. Seguir essa norma é o que diferencia transcrição de anotação pessoal.
De onde vêm as normas
As Normas Técnicas para Transcrição e Edição de Documentos Manuscritos foram elaboradas pela Comissão de Sistematização e Redação do II Encontro Nacional de Normatização Paleográfica, Histórica e Diplomática, realizado em São Paulo em 16 e 17 de setembro de 1993, dando continuidade ao trabalho do I Encontro, de 1990. São mantidas e divulgadas pelo Arquivo Nacional, e são a referência citada em trabalhos acadêmicos brasileiros.
As regras, uma a uma
Elemento
Regra
Ortografia
Mantida na íntegra, sem correção gramatical. Não se moderniza, não se conserta concordância
Abreviaturas não correntes
São desenvolvidas, com os acréscimos em grifo — assim o leitor vê o que estava escrito e o que você completou
Abreviaturas ainda usuais
Podem ser mantidas, se de fácil reconhecimento
Sinais latinos e notas tironianas
Desdobrados e grifados
Maiúsculas e minúsculas
Mantidas como no original, mesmo quando parecem aleatórias
Pontuação
Mantida como no original. Não se acrescenta vírgula para facilitar a leitura
Separação de palavras
Palavras indevidamente unidas são separadas, e sílabas ou letras indevidamente separadas são unidas — com exceção dos pronomes proclíticos, mesoclíticos e enclíticos
Linhas e parágrafos
A transcrição pode ser linha a linha ou corrida; a divisão de parágrafos do original é respeitada
Paginação e marcação
A mudança de página é indicada entre colchetes, no meio do texto, incluindo o verso: [fl. 3], [fl. 3v].
Se o original não for numerado, o transcritor numera, em colchetes e grifo.
Folhas em branco também são indicadas — a ausência de texto é informação.
O que fazer com o que não dá para ler
Situação
Marcação
Palavra parcial ou totalmente ilegível, mas reconstituível pelo contexto
A reconstituição vai entre colchetes
Palavra que o transcritor não conseguiu ler
[ilegível], grifado
Trecho danificado por corrosão, rasgo ou umidade
Indicação aproximada da extensão: [corroídas ± 6 linhas]
Leitura duvidosa
[?] logo após a palavra
Erro, omissão, repetição ou truncamento no original
[sic], grifado, logo após
Elementos autógrafos entre linhas ou na margem, que completam o texto
Inseridos entre <...>
Quanto às notas: as autógrafas que não couberem no texto ficam em seu lugar ou em sequência, com indicação de margem direita ou esquerda; as não autógrafas e as de mão alheia vão para o rodapé.
O princípio por trás de todas as regras
Olhe o conjunto e perceba a lógica: tudo o que o transcritor acrescenta tem de ser visível como acréscimo.
Grifo para o que foi desenvolvido. Colchetes para o que foi reconstituído, para o que não se leu e para a paginação que não existia. Sinais de menor e maior para o que veio da entrelinha.
O objetivo é permitir que outra pessoa, de posse do original, confira o seu trabalho e discorde dele. Transcrição em que não se distingue original de interpretação não é fonte publicada: é opinião disfarçada de documento.
E a regra que resume: na dúvida, transcreva o que está lá, não o que deveria estar lá.
Modelo de cabeçalho de transcrição
Toda transcrição publicada deve vir precedida da identificação completa da fonte:
Instituição e sigla
Fundo e série
Unidade — livro, caixa, maço
Folhas transcritas, com frente e verso
Tipo documental e data
Critérios adotados — "transcrição conforme as Normas Técnicas para Transcrição e Edição de Documentos Manuscritos; abreviaturas desenvolvidas em grifo; ortografia original mantida"
Nome do transcritor e data da transcrição
Esse último item não é vaidade: transcrição é trabalho interpretativo e tem autoria. Quem conferir precisa saber quem leu e quando.
Módulo 4 de 5
Datas, moedas, pesos e medidas
Você decifrou a letra e desenvolveu as abreviaturas — e então o documento diz que o inventariado possuía trinta alqueires, duas arrobas de fumo e uma dívida de quatrocentos mil réis, lavrada aos dezoito dias do mês de maio da era de mil setecentos e noventa e dois. Este módulo é sobre entender o que isso quer dizer.
Datação
Por extenso. Datas vêm escritas em palavras, não em números: "aos vinte e tres dias do mez de Settembro de mil oitocentos e quarenta e cinco". Treine ler números por extenso em grafia antiga — é das primeiras coisas que você decifra numa página.
A era cristã aparece como "era de", "anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de".
O calendário gregoriano foi adotado por Portugal e seus domínios já em outubro de 1582: ao dia 4 seguiu-se o dia 15. Documento português anterior a essa data está no calendário juliano. É um detalhe que raramente afeta pesquisa brasileira, mas que importa em datação comparada com países que adotaram o novo calendário muito depois — a Inglaterra só em 1752, a Rússia só no século XX.
Festas móveis como referência. Documentos religiosos datam por Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi. A data varia a cada ano; há tabelas de conversão publicadas.
Ano de reinado. Textos oficiais frequentemente acrescentam o ano do reinado do monarca. Útil para confirmar datação duvidosa.
Moeda
O sistema do real, plural réis, atravessa todo o período colonial e imperial. O que confunde é a notação:
Escrito
Leitura
500
quinhentos réis
1$000
mil réis — o cifrão separa o milhar
1$500
mil e quinhentos réis
1:000$000
um conto de réis, isto é, um milhão de réis — os dois pontos separam o conto
12:450$300
doze contos, quatrocentos e cinquenta mil e trezentos réis
Nomes de moedas que aparecem nos documentos: vintém, tostão, pataca, cruzado, dobrão, oitava de ouro. E uma advertência importante: não tente converter valores antigos em reais de hoje. Não há conversão honesta — moeda, salários, preços relativos e padrão de consumo mudaram demais. O que se faz é comparar dentro do documento ou da série: quanto valia um escravizado comparado a uma casa, a um boi, a um ano de trabalho de um jornaleiro.
Pesos e medidas antes do sistema métrico
O Brasil adotou o sistema métrico decimal por lei em 1862, mas a implantação foi lenta e as medidas antigas sobreviveram décadas na prática — e sobrevivem até hoje no meio rural.
Medida
Do quê
Observação
Palmo, vara, braça, légua
Comprimento
Uma braça equivale a cerca de 2,2 m; a légua variava conforme a região e a época
Alqueire
Área e também volume de grãos
Varia por região — o alqueire paulista, o mineiro e o do norte têm tamanhos diferentes. Nunca assuma um valor único
Arroba, quintal, libra, arrátel
Peso
A arroba equivale a cerca de 15 kg; o quintal, a quatro arrobas
Canada, almude, pipa, quartilho
Volume de líquidos
Aparecem em inventários de engenho e de taberna
Côvado
Tecido
Comum em inventários e contas de loja
Não converta por conta própria
O erro mais frequente em TCC que usa inventário é pegar uma tabela de conversão da internet e transformar tudo em metros e quilos.
O problema: muitas dessas medidas variavam por província, por município e por época, e algumas variavam até por produto. Alqueire é o caso extremo — a diferença entre o alqueire paulista e o mineiro é grande o bastante para inverter uma conclusão sobre concentração fundiária.
O procedimento correto: procure a equivalência da região e do período que você estuda, em legislação provincial, posturas municipais ou bibliografia especializada; cite a fonte da conversão; e, quando não encontrar, mantenha a medida original no texto e diga por quê. Trabalhar com a unidade da época é mais honesto do que converter errado.
Vocabulário que não é o de hoje
Pessoas:forro e liberto (alforriado), crioulo (nascido no Brasil), africano ou de nação (nascido na África), pardo, cabra, bastardo, administrado (indígena sob tutela de colono), agregado (morador na propriedade sem posse).
Família:natural (filho fora do casamento), legítimo, exposto ou enjeitado (criança abandonada, muitas vezes na roda), inocente (criança pequena).
Terra:sesmaria, data, posse, chão, morada de casas, sítio, rossio.
Essas palavras são classificações jurídicas e sociais de um sistema de dominação, não descrições neutras — e é por isso que elas interessam. Anotar quantas vezes cada categoria aparece numa série documental é, por si só, pesquisa.
Módulo 5 de 5
Tipos documentais e o cuidado com o original
Documento antigo tem forma fixa. Reconhecer a estrutura do tipo documental acelera a leitura de modo espetacular: se você sabe que um registro de batismo sempre traz data, nome do batizando, idade, condição, nome dos pais e dos padrinhos e assinatura do pároco, você já sabe o que procurar antes de ler.
Os tipos que você mais vai encontrar
Tipo
Estrutura fixa
O que rende como fonte
Registro de batismo
Data, local, nome do batizando, idade, condição jurídica, filiação, naturalidade dos pais, padrinhos, pároco
Demografia, família, compadrio, escravidão, origem africana declarada
Registro de casamento
Data, nomes, estado civil, naturalidade, filiação, testemunhas, banhos e dispensas
Alianças familiares, endogamia, mobilidade
Registro de óbito
Data, nome, idade, causa, sacramentos, sepultamento
Mortalidade, epidemias, condição social pelo tipo de sepultura
Inventário post mortem
Abertura, nomeação de inventariante, descrição e avaliação de todos os bens, dívidas, partilha entre herdeiros
A fonte mais rica que existe: riqueza, cultura material, escravizados nominados com idade e valor, terras, dívidas, letramento
Testamento
Invocação religiosa, declaração de fé, disposições sobre a alma, legados, nomeação de herdeiros e testamenteiro
Religiosidade, afetos, alforrias concedidas em testamento, filhos naturais reconhecidos
Carta de alforria
Identificação do senhor e da pessoa alforriada, condições, valor pago ou gratuidade, assinatura e testemunhas
Compra da liberdade, condicionalidade, trabalho acumulado
Escritura de compra e venda
Partes, objeto, preço, testemunhas, tabelião
Mercado de terras e de pessoas, rede de negócios
Ata de câmara
Data, presentes, pauta, deliberações, assinaturas
Poder local, obras, abastecimento, posturas, conflitos
Processo judicial
Petição, autuação, testemunhos, defesa, sentença
Cotidiano, conflito, honra, violência, ações de liberdade
O inventário é a melhor fonte para começar
Se você está procurando por onde entrar na pesquisa com documentação manuscrita, comece por inventários post mortem. Razões:
A estrutura é previsível, o que facilita muito a leitura paleográfica.
É seriado: dezenas ou centenas de inventários do mesmo cartório permitem comparação e quantificação.
É detalhadíssimo: descreve cada panela, cada ferramenta, cada peça de roupa, com valor — é a melhor fonte brasileira sobre cultura material.
Nomeia pessoas escravizadas, com idade, origem declarada, ofício e valor, o que permite reconstituir famílias e trajetórias.
Indica letramento: quem assinava e quem assinava a rogo, por não saber escrever.
Um conjunto de trinta inventários de uma vila, transcritos e tabulados, é um TCC excelente — e a tabela fica disponível para a próxima pessoa.
Manuseio: não estrague o que sobreviveu
Mãos limpas e secas. Luva de algodão atrapalha o tato e aumenta o risco de rasgar papel fino; muitos arquivos preferem mão limpa a luva. Siga a regra da casa.
Lápis, nunca caneta. Praticamente todo arquivo proíbe caneta na sala de consulta, e com razão.
Nada de comida, bebida ou objeto solto sobre a mesa.
Não apoie o caderno sobre o documento e não use o livro como apoio para escrever.
Vire a folha pela borda, nunca pelo meio, e nunca umedecendo o dedo.
Não force a lombada de livro encadernado. Use suporte em V se houver.
Não aplique nada — fita, clipe, grampo, cola, papel adesivo. Clipe enferruja e mancha para sempre.
Não tente limpar nem desdobrar documento quebradiço. Chame o funcionário.
Fotografe sem flash, com luz ambiente, apoiando sem pressionar.
Mantenha a ordem. Se tirar folhas de um maço, devolva exatamente na mesma sequência — a ordem original é informação arquivística.
Plano de treino de oito semanas
Semanas 1 e 2: escolha um único livro, de preferência registros paroquiais do século XIX, que é a letra mais fácil. Transcreva um assento por dia, sem pressa.
Semanas 3 e 4: monte o glossário de abreviaturas e o alfabeto daquele escrivão. A velocidade dobra.
Semana 5: troque de escrivão dentro do mesmo livro. Perceba quanto do que você aprendeu é geral e quanto era daquela mão.
Semana 6: recue um século. Pegue documento do XVIII e sofra um pouco.
Semana 7: transcreva um inventário inteiro, aplicando as normas do Módulo 3, com todas as marcações.
Semana 8: peça a alguém que confira a sua transcrição contra o original. É a única forma de descobrir os erros que você repete sem perceber.
Ao fim de oito semanas você lê documento do XIX com fluência razoável e documento do XVIII com dicionário ao lado. Não há atalho, e também não é preciso mais que isso para fazer pesquisa séria.
Para saber mais
Normas Técnicas para Transcrição e Edição de Documentos Manuscritos — II Encontro Nacional de Normatização Paleográfica, Histórica e Diplomática, São Paulo, 1993; divulgadas pelo Arquivo Nacional.
Manuais de paleografia publicados por arquivos públicos estaduais — vários são gratuitos e trazem pranchas com exercícios resolvidos.
Dicionários de abreviaturas de documentos luso-brasileiros, disponíveis em bibliotecas universitárias.
Acervos digitalizados para treinar sem sair de casa: Hemeroteca Digital Brasileira e Biblioteca Nacional Digital; Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin; portais dos arquivos públicos estaduais; acervos digitalizados de registros paroquiais.
Lei nº 8.159/1991 e Lei nº 12.527/2011 — acesso aos acervos.
Cursos "Metodologia da Pesquisa Histórica", "História Local e Regional" e "Patrimônio, Arquivos e Museus", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 12 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 9. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.