Fonte e crítica documental, projeto de pesquisa, arquivo, história oral, ética e normas ABNT: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
A fonte histórica e a crítica documental
Quem começa a pesquisar costuma imaginar que o historiador encontra o documento e o documento conta o que aconteceu. Não é assim. O documento não fala sozinho: ele responde ao que se pergunta a ele, e mente com a mesma naturalidade com que uma pessoa mente. O ofício começa quando se para de acreditar na fonte e se começa a interrogá-la.
De documento a fonte
Até o fim do século XIX, a historiografia erudita trabalhava quase só com documento oficial escrito: lei, tratado, ata, correspondência de Estado. A história era, em boa medida, a história dos governos.
A virada veio com a revista Annales, fundada em 1929 por Lucien Febvre e Marc Bloch, em Estrasburgo. Para eles, tudo o que o ser humano produziu pode informar sobre o ser humano: um registro de batismo, um inventário de bens, um recibo de armazém, a planta de uma casa, um pote de barro, uma fotografia de família, a forma de um campo visto do alto. A expressão que ficou é ampliação da noção de fonte.
Com isso veio uma consequência incômoda: se tudo pode ser fonte, nada é fonte por si mesmo. Um objeto vira fonte quando uma pergunta o transforma em fonte. O mesmo livro de registro de uma paróquia é fonte de história demográfica para quem pergunta sobre mortalidade infantil, de história da família para quem pergunta sobre padrinhos e compadrio, e de história da escravidão para quem pergunta quem era batizado sem nome de pai.
Documento e monumento
Jacques Le Goff chamou atenção para o fato de que todo documento é também monumento: alguém decidiu produzi-lo, alguém decidiu guardá-lo, e alguém decidiu o que destruir.
O que chegou até o arquivo não é uma amostra aleatória do passado. É o que o poder da época achou que valia registrar e o que a instituição seguinte achou que valia conservar. Por isso há montanhas de papel sobre o que o Estado fez e quase nada sobre a vida de quem não sabia escrever.
Pesquisar é trabalhar com esse acervo torto sabendo que ele é torto — e não confundir ausência de fonte com ausência de história.
Tipos de fonte
Tipo
Exemplos
O que costuma revelar bem
Escritas oficiais
Leis, atas de câmara, processos, ofícios, relatórios de província
A ação do Estado, os conflitos que chegaram à autoridade, a linguagem do poder
Escritas pessoais
Cartas, diários, memórias, cadernos de receitas
Experiência vivida, afetos, o que não se dizia em público
Seriais
Registros de batismo, casamento e óbito, inventários, censos, livros de notas
Padrões ao longo do tempo — família, riqueza, mortalidade, propriedade
Imprensa
Jornais, revistas, almanaques, anúncios
Debate público, disputas políticas, cotidiano urbano, preços e costumes
Técnica, trabalho, uso do espaço, vida de quem não deixou papel
Orais
Entrevistas, depoimentos, tradição oral
Memória, sentido atribuído ao passado, história de grupos sem arquivo
Audiovisuais e digitais
Filmes, rádio, TV, sites, redes sociais, bancos de dados
Cultura de massa, história do tempo presente
Primária e secundária: uma distinção relativa
Chama-se fonte primária o material produzido no contexto estudado, e fonte secundária o que outros pesquisadores escreveram sobre ele. Mas a divisão depende da pergunta, não do objeto.
Um livro de história do Brasil escrito em 1930 é fonte secundária para quem estuda a Independência e fonte primária para quem estuda como a Independência era contada nos anos 1930. O mesmo papel muda de função conforme o que se quer saber. Quem entende isso para de perguntar "este documento é primário?" e passa a perguntar "primário para qual pergunta?".
A crítica: externa e interna
O método crítico foi sistematizado no fim do século XIX — a referência clássica é a Introdução aos estudos históricos, de Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, de 1898. Muita coisa daquela escola envelheceu, mas o procedimento de crítica continua sendo a base do ofício.
Crítica externa
Crítica interna
O documento é autêntico ou é falsificação?
Quem escreveu dizia a verdade? Tinha como saber o que afirma?
Quem é o autor? Escreveu de próprio punho ou é cópia?
Qual o interesse de quem escreveu? Para quem escrevia?
Quando e onde foi produzido?
O que as palavras significavam naquele momento?
O suporte, a tinta, o papel, o selo são compatíveis com a data?
O que o documento silencia? O que ele supõe que o leitor já sabe?
As duas perguntas mais úteis que se pode fazer a qualquer documento são: por que isto foi escrito? e por que isto foi guardado?
Exercício: interrogando um documento
Pegue um anúncio de jornal do século XIX oferecendo recompensa pela captura de uma pessoa escravizada. A leitura ingênua vê "um escravo fugiu". A leitura crítica extrai muito mais:
O anúncio descreve marcas no corpo — portanto é fonte sobre violência física e sobre como se identificava uma pessoa.
Diz o ofício da pessoa — logo, é fonte sobre trabalho qualificado escravizado nas cidades.
Menciona parentes ou lugares para onde pode ter ido — é fonte sobre laços familiares e redes de proteção.
Oferece recompensa em dinheiro — informa sobre valores e sobre o mercado.
Foi pago por um senhor e publicado — mostra quem tinha acesso à imprensa.
E há o silêncio: o anúncio nunca diz por que a pessoa fugiu. Quem narra é o proprietário. Ler a contrapelo é exatamente isto: extrair da fonte do opressor informação sobre quem ela tentava apagar.
Anacronismo: o erro mais comum
Anacronismo é julgar o passado com as categorias do presente — ou pior, supor que as palavras significavam ontem o que significam hoje.
"Liberdade" em 1789 não é "liberdade" em 2026. "Família" num inventário colonial inclui gente que hoje não chamaríamos de família. "Trabalhador" antes da legislação social não quer dizer o mesmo. "Índio", "mulato", "pardo" são classificações de um sistema de dominação, não descrições neutras.
O antídoto é simples de enunciar e difícil de praticar: antes de interpretar uma palavra, descubra o que ela significava para quem a escreveu.
Módulo 2 de 5
Da curiosidade ao problema: montando o projeto
A maior parte dos projetos de pesquisa que são recusados não é recusada por falta de leitura. É recusada porque o estudante apresentou um tema e achou que estava apresentando um problema. Este módulo é sobre essa diferença, que decide o resto do trabalho.
Tema, objeto, problema
O que é
Exemplo
Tema — a área geral de interesse
A escravidão no Brasil
Objeto — o recorte concreto que se vai estudar
As alforrias registradas nos livros de notas de uma vila, entre 1850 e 1871
Problema — a pergunta que a pesquisa responde
Em que condições as alforrias eram concedidas e quanto delas era, na prática, compra da própria liberdade?
Hipótese — a resposta provisória a ser testada
A maioria das alforrias era onerosa e negociada, e não um gesto de benevolência
Um bom problema tem três qualidades: é uma pergunta (termina em ponto de interrogação, e isso não é detalhe), pode ser respondida com as fontes que existem e que você consegue acessar, e a resposta não é óbvia de antemão. Se você já sabe a resposta, não é pesquisa, é ilustração de uma opinião.
Transformando tema em problema
Tema: a ditadura militar. Problema: como o jornal local de uma cidade do interior noticiou o AI-5 na semana seguinte à sua edição, e o que o silêncio sobre certos assuntos revela da autocensura?
Tema: a imigração italiana. Problema: os processos de naturalização pedidos entre 1890 e 1910 mostram quais motivos os requerentes julgavam convincentes diante do Estado?
Tema: as mulheres na história da cidade. Problema: quantas e quais mulheres aparecem como chefes de domicílio nos recenseamentos municipais, e que ofícios declaravam?
Repare no padrão: o problema sempre amarra uma pergunta a um conjunto concreto de documentos. É essa amarra que torna o projeto executável.
Delimitar: tempo, espaço, tema
Toda pesquisa precisa de três recortes, e cada um precisa de justificativa — não basta dizer "de 1930 a 1945", é preciso dizer por que esses marcos e não outros.
Temporal: por que começa aqui e termina ali? Um marco bom é um acontecimento que muda as condições do que se estuda, não uma data redonda.
Espacial: um município, uma freguesia, uma empresa, uma instituição. Quanto mais estreito o espaço, mais fundo se consegue ir.
Temático: o aspecto específico. "A educação em tal cidade" é largo demais; "a criação das primeiras escolas noturnas para trabalhadores" é pesquisável.
O erro de principiante é o recorte largo, por medo de que o assunto "não dê conteúdo". Na prática acontece o contrário: recorte largo gera trabalho superficial e recorte estreito gera trabalho original, porque ninguém antes se deu ao trabalho de olhar aquele pedaço de perto.
O estado da arte
Antes de escrever uma linha, é preciso saber o que já foi escrito. Isso não é formalidade: é o que impede você de passar um ano descobrindo algo que está publicado desde 2009, e é o que permite dizer com honestidade onde está a sua contribuição.
Onde procurar
O que se encontra
Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES
Tudo que foi defendido em pós-graduação no país
BDTD — Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações
Texto completo de teses e dissertações
SciELO e Portal de Periódicos da CAPES
Artigos de revistas acadêmicas
Repositórios institucionais das universidades
Monografias de graduação, que raramente aparecem em outro lugar
Anais de eventos (ANPUH, simpósios regionais)
Pesquisa em andamento, mais recente que o publicado
Lendo, anote sempre três coisas de cada trabalho: que pergunta ele fez, com que fontes respondeu e o que ficou em aberto. O que ficou em aberto costuma ser o seu tema.
As partes do projeto
Parte
O que responde
Título
O que se estuda, onde e quando. Deve caber no subtítulo o recorte
Introdução e problema
A pergunta e por que ela importa
Justificativa
Por que vale a pena pesquisar isto — relevância acadêmica e social
Objetivos
Um geral, que espelha o problema; três a cinco específicos, cada um um passo concreto
Referencial teórico
Com quais conceitos você vai pensar e de quem os toma
Fontes
Quais documentos, onde estão, se estão acessíveis, em que estado
Metodologia
O que você vai fazer com as fontes, passo a passo
Cronograma
O que em cada semestre, com folga para o imprevisto
Referências
O que já foi lido, em norma ABNT
A pergunta que salva projetos
Antes de entregar, responda honestamente: eu já vi essas fontes com meus próprios olhos?
Muito projeto bonito morre quando o estudante chega ao arquivo e descobre que a série que ele ia usar pegou fogo em 1974, que o acervo está fechado para higienização por dois anos, que o livro existe mas está ilegível, ou que o acesso depende de autorização judicial.
Visite o acervo antes de fechar o projeto. Uma tarde no arquivo no começo economiza um semestre no meio.
Módulo 3 de 5
O trabalho no arquivo e na hemeroteca
Arquivo não é biblioteca. Na biblioteca, você procura um título e ele está lá, catalogado por assunto. No arquivo, os documentos estão organizados pela lógica de quem os produziu, não pela lógica de quem os procura. Entender essa diferença é o que separa quem acha do que quem desiste no terceiro dia.
Como um arquivo é organizado
A arquivística trabalha com dois princípios que explicam tudo o que você vai encontrar:
Princípio da proveniência (respeito aos fundos): documentos de um mesmo produtor não se misturam com os de outro. O fundo da Câmara Municipal é um fundo; o do Fórum é outro; o da Santa Casa é outro.
Princípio da ordem original: dentro do fundo, preserva-se a ordem em que a instituição organizou seus papéis. Não se reorganiza por assunto, porque a ordem original é, ela mesma, informação.
A hierarquia usual vai do maior para o menor: fundo (o produtor) → seção → série (tipos documentais: "processos-crime", "livros de registro de impostos") → dossiê ou processo → item documental (a folha).
Por isso a pergunta certa a fazer ao arquivista não é "vocês têm alguma coisa sobre escolas?" — é "que fundos vocês guardam, de que período, e quais instrumentos de pesquisa existem?".
Os instrumentos de pesquisa
Instrumento
O que oferece
Guia
Visão geral de todos os fundos da instituição — o ponto de partida
Inventário
Descrição das séries de um fundo, com datas-limite e quantidade
Catálogo
Descrição item a item — o mais detalhado e o mais raro
Índice
Entradas por nome, lugar ou assunto, remetendo à localização
Muitos arquivos municipais brasileiros não têm nenhum desses instrumentos. Nesse caso, a pesquisa começa por um levantamento feito por você mesmo, caixa por caixa — trabalhoso, e frequentemente a parte mais original da monografia.
O que a lei garante
Dois textos importam para quem pesquisa:
Lei nº 8.159/1991 — Política Nacional de Arquivos. Define a gestão documental e a classificação em arquivos corrente (em uso), intermediário (aguardando destinação) e permanente (valor histórico, guarda definitiva). É dever do poder público a gestão e a franquia da documentação à consulta.
Lei nº 12.527/2011 — Lei de Acesso à Informação. O acesso é a regra e o sigilo a exceção, o pedido não precisa ser justificado, o prazo é de 20 dias prorrogáveis por mais 10. As informações classificadas têm sigilo de 5, 15 ou 25 anos conforme o grau, e informação pessoal sensível tem restrição de 100 anos a contar da produção.
Esse prazo de 100 anos é o que você vai encontrar na prática em processos judiciais recentes, prontuários e fichas de internação. Não adianta insistir: a restrição existe e há caminhos formais (autorização do titular ou de herdeiros, pedido fundamentado à instituição) para os casos em que a pesquisa justifica.
Jornal: a hemeroteca
Jornal é uma das fontes mais ricas e mais traiçoeiras. Rica porque registra o cotidiano dia a dia; traiçoeira porque todo jornal tem dono, partido e interesse comercial — a notícia é sempre a versão de alguém.
A Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional, disponibiliza gratuitamente milhões de páginas de periódicos brasileiros com busca por palavra. Alguns cuidados que fazem diferença:
O reconhecimento de texto falha em jornal antigo. Busque variações de grafia ("pharmacia", "elle", "offcio") e nomes com e sem acento.
Busque também pelo nome das pessoas, não só pelo assunto. O assunto raramente aparece com a palavra que usamos hoje.
Leia a página inteira, não só o trecho que a busca marcou. O que está ao lado contextualiza — e às vezes é melhor que o achado.
Identifique o perfil do jornal antes de citá-lo: quem o dirigia, a quem apoiava, quanto tempo durou.
Rotina de arquivo que evita retrabalho
Antes de ir: confira horário, se é preciso agendar, o que é permitido levar e se há taxa para reprodução. Muitos arquivos proíbem caneta — leve lápis.
Caderno de campo: uma página por sessão, com data, fundo e caixas consultadas. Inclusive as caixas em que não achou nada — assim você não as abre de novo daqui a seis meses.
Ao fotografar: fotografe primeiro a etiqueta da caixa ou a capa do livro, depois o documento. Sem isso, três meses depois você terá 400 fotos sem saber de onde saíram.
Nome de arquivo padronizado:fundo_serie_caixa_livro_folha. Faça isso no mesmo dia; não deixe acumular.
Planilha de registro: uma linha por documento, com localização completa, data, tipo, resumo em uma frase e a palavra-chave do seu projeto.
Essa disciplina parece exagero na primeira semana. Na hora de escrever e de montar as referências, ela é a diferença entre terminar e recomeçar.
A referência de um documento de arquivo
Toda citação de documento precisa permitir que outra pessoa encontre exatamente o mesmo papel. O mínimo é:
Instituição (e sigla, na primeira menção)
Fundo
Série
Unidade — caixa, livro, maço, pacotilha
Folha ou página (frente e verso: f. 12v)
Data do documento
Tipo documental — ofício, carta de alforria, processo-crime
Anote isso no momento em que vê o documento. Reconstituir depois é quase sempre impossível, e um documento que você não consegue referenciar é um documento que você não pode usar.
Módulo 4 de 5
História oral: entrevista, ética e transcrição
História oral não é "ouvir quem viveu aquilo para confirmar o que os documentos dizem". É um método que produz uma fonte nova, no presente, junto com uma pessoa — e que tem regras próprias, inclusive jurídicas. Este módulo é também o módulo de ética da pesquisa, porque é aqui que o historiador trabalha com gente viva.
Memória não é gravação
A primeira coisa a desaprender: a pessoa entrevistada não está "lembrando" como quem lê um arquivo interno. A memória é reconstruída toda vez que é acionada, a partir do presente de quem lembra.
Maurice Halbwachs mostrou que a memória é coletiva: lembramos dentro de quadros sociais, com as palavras e os marcos do grupo a que pertencemos. Michael Pollak trabalhou as memórias subterrâneas — as dos grupos derrotados ou silenciados, que sobrevivem fora do registro oficial e emergem quando as condições permitem.
A consequência prática é importante: quando o entrevistado erra uma data, isso não invalida a entrevista. O erro é, ele mesmo, um dado. A pergunta deixa de ser "foi isso que aconteceu?" e passa a ser "por que essa pessoa guarda assim?".
Três modalidades
Modalidade
O que busca
Quando usar
História oral de vida
A trajetória inteira, no ritmo do narrador
Quando interessa a experiência e o modo de narrar
História oral temática
Um assunto delimitado, com roteiro
O caso mais comum em monografia
Tradição oral
Narrativas transmitidas entre gerações
Comunidades quilombolas, indígenas, memória de ofícios
A ética não é opcional — e vale para o TCC
A Resolução CNS nº 510/2016 é a norma de ética em pesquisa específica para as ciências humanas e sociais. Ela lista, no parágrafo único do artigo 1º, as pesquisas que não precisam ser registradas e avaliadas pelo sistema CEP/CONEP. Entre elas:
Pesquisa de opinião pública com participantes não identificados;
Pesquisa com informações de acesso público, nos termos da Lei de Acesso à Informação, ou de domínio público;
Pesquisa censitária;
Pesquisa com bancos de dados agregados, sem possibilidade de identificação individual;
Pesquisa feita exclusivamente com textos científicos, para revisão de literatura;
Atividade exclusivamente educativa, de ensino ou treinamento, sem finalidade de pesquisa científica.
Atenção: o TCC não está dispensado
Essa é a parte que a maioria dos estudantes desconhece. O último item da lista — atividade de ensino — tem um parágrafo logo abaixo dizendo expressamente que trabalhos de conclusão de curso, monografias e similares NÃO se enquadram nessa dispensa e devem ser apresentados ao sistema CEP/CONEP.
Ou seja: se o seu TCC envolve entrevistar pessoas identificáveis, ele precisa de apreciação ética. Isso se faz pela Plataforma Brasil, com o apoio do orientador, e leva tempo — meses, em muitos comitês.
Inclua esse prazo no cronograma do projeto, logo no começo. Deixar para pedir depois de já ter entrevistado é um problema sério, e não há como consertar depois.
O consentimento
A resolução trata o consentimento como processo, não como assinatura. A anuência deve ser livre e esclarecida, sem simulação, fraude, erro ou intimidação, e depois de a pessoa entender o que a pesquisa é.
Pontos práticos que a norma permite e que ajudam muito em pesquisa com pessoas idosas ou não alfabetizadas:
A comunicação do consentimento pode ser oral, escrita, em língua de sinais ou outra forma adequada.
O registro pode ser escrito, sonoro, imagético ou em outra forma adequada à pesquisa — gravar a leitura do termo e o aceite é registro válido.
O pesquisador deve justificar o meio de registro escolhido.
Quando não houver registro, entrega-se ao participante um documento com as informações do consentimento; a obtenção também pode ser comprovada por testemunha que não integre a equipe de pesquisa.
A dispensa do registro precisa ser avaliada e aprovada pelo sistema CEP/CONEP — não é decisão do pesquisador.
Além disso, para depositar a entrevista em acervo, publicar trechos ou usar o nome real, o uso corrente é uma carta de cessão de direitos, assinada depois da entrevista, em que o depoente autoriza o uso e define se quer ser identificado ou não.
Conduzindo a entrevista
Antes
Roteiro semiestruturado: de 8 a 12 perguntas abertas, na ordem em que fazem sentido, mas livre para mudar.
Teste o gravador e leve bateria extra. Grave sempre em dois aparelhos — o celular de reserva já salvou muita pesquisa.
Escolha um local calmo e do conforto do entrevistado, nunca o seu conforto.
Durante
Comece pelo mais fácil — nome, origem, família. Assunto difícil vem depois do vínculo criado.
Pergunte uma coisa por vez. Pergunta com duas perguntas dentro recebe resposta pela metade.
Aguente o silêncio. A pausa de cinco segundos depois da resposta é onde vem o que importa. Quem preenche o silêncio perde a entrevista.
Não corrija datas nem discuta a versão. Anote a divergência e verifique depois, em outra fonte.
Não induza: "o senhor devia estar com muito medo, não é?" entrega a resposta pronta. Pergunte "como foi para o senhor naquele dia?".
Depois
Faça as anotações de contexto no mesmo dia: o lugar, as interrupções, o que a pessoa disse com o gravador desligado — isto não se usa sem autorização, mas ajuda a entender.
Faça backup da gravação em dois lugares antes de dormir.
Transcrição
Etapa
O que é
Transcrição literal
Tudo como foi falado, com repetições, vícios e hesitações. É a base de trabalho
Textualização
Retiram-se as perguntas e os vícios de oralidade, mantendo as palavras do narrador, para ganhar legibilidade
Transcriação
Reescrita trabalhada para publicação, devolvida ao narrador para aprovação
Seja qual for a escolha, diga no texto qual delas você usou. E nunca "limpe" a fala de modo a corrigir a gramática do depoente sem avisar: isso apaga o modo de falar, que muitas vezes é o próprio objeto.
Módulo 5 de 5
Do fichamento ao texto final
A pesquisa só existe quando vira texto lido por outra pessoa. Este módulo trata da parte que todo mundo adia: organizar o que se leu, escrever um argumento em vez de um relato, e aplicar as normas sem perder dias com elas.
Fichamento: o trabalho que parece perdido e não é
Tipo
O que registra
Para que serve depois
Bibliográfico
A referência completa da obra, em norma
Montar as referências sem reabrir os livros
De conteúdo
Resumo do argumento, com as suas palavras
Lembrar do que o livro trata seis meses depois
De citação
Trechos literais, entre aspas, com página
Citar sem erro e sem risco de plágio
De comentário
O que você pensou ao ler
É daqui que sai a sua análise
A regra de ouro do fichamento: distinga visualmente, desde a primeira linha, o que é palavra do autor e o que é palavra sua. Use aspas sempre, mesmo no caderno, mesmo sabendo que ninguém mais vai ler. É dessa confusão — anotar uma frase do livro sem aspas e, meses depois, achar que a escreveu — que nasce a maioria dos plágios não intencionais.
Plágio: o que conta e o que não conta
Plágio é apresentar como seu o que é de outro. Conta como plágio:
Copiar trecho sem aspas e sem referência, mesmo que a obra apareça na bibliografia no fim.
Trocar algumas palavras de sinônimo e manter a estrutura da frase — a chamada paráfrase mal-feita.
Usar a ideia ou a tese de alguém sem creditar, mesmo escrevendo com as próprias palavras.
Traduzir um texto estrangeiro e usá-lo sem indicar a autoria.
Reaproveitar texto seu já publicado sem dizer — é o autoplágio.
Não conta como plágio citar bastante, desde que com aspas e referência. Um trabalho com muitas citações bem-feitas é um trabalho honesto; um trabalho sem nenhuma costuma ser um trabalho que não leu.
As consequências não são simbólicas: reprovação, anulação do título, retratação de artigo e, em concurso público, eliminação. E softwares de similaridade são hoje de uso rotineiro nas bancas.
Escrever um argumento, não uma cronologia
O texto de história não é uma linha do tempo comentada. Ele responde à pergunta do projeto, e cada capítulo é um passo dessa resposta.
Cada capítulo tem uma função. Se você não consegue dizer em uma frase o que o capítulo 2 prova, ele ainda não existe.
A fonte entra para sustentar uma afirmação sua, não para preencher espaço. Citação jogada sem comentário é peso morto: depois de citar, diga o que aquilo mostra.
Mostre a dúvida. Escrever "a documentação não permite afirmar se..." é sinal de maturidade, não de fraqueza.
A conclusão retoma a pergunta e responde. Não é resumo dos capítulos; é a resposta, com as ressalvas que a pesquisa impôs.
As normas ABNT que importam para você
Duas normas cobrem quase tudo o que um trabalho de história precisa. Vale saber qual é a versão vigente de cada uma, porque muito manual que circula na internet está desatualizado.
Norma
Do quê trata
Versão vigente
NBR 6023
Referências — como se escreve a lista do fim
2018, publicada em 14/11/2018, com versão corrigida em 26/08/2020
NBR 10520
Citações — como se cita dentro do texto
2023, publicada em 19/07/2023, substituindo a de 2002
O que mudou na NBR 10520 em 2023
Esta é a mudança que mais pega estudante desprevenido, porque a imensa maioria dos tutoriais na internet ainda ensina o modo antigo:
O sobrenome dentro dos parênteses não vai mais em caixa alta. Era (RODRIGUES, 2023); agora é (Rodrigues, 2023). Na lista de referências do fim, o sobrenome continua em maiúsculas.
O recuo de 4 cm da citação longa (mais de três linhas) deixou de ser obrigatório e passou a ser recomendado; mantém-se fonte menor, espaço simples e sem aspas.
O ponto final vem depois da indicação da fonte, não antes.
Com três ou mais autores, pode-se usar o primeiro seguido de et al., desde que o critério seja o mesmo no trabalho inteiro.
Expressões latinas — apud, et al., ibid., idem, passim — vão em itálico.
Em fonte sem paginação, não se escreve mais nada no lugar da página; a antiga indicação "n.p." foi abandonada.
Confira sempre o manual da sua instituição: muitas universidades publicam o próprio guia e, havendo divergência, é o guia da casa que vale na banca.
Citação de citação: use pouco
O apud indica que você citou um autor que leu em outro. É permitido, mas deve ser raro: ele avisa à banca que você não foi ao original. Quando a obra citada estiver disponível, vá até ela. Na lista de referências entra apenas a obra que você efetivamente consultou.
Checklist antes de entregar
O título diz o objeto, o lugar e o período?
A pergunta da introdução é a mesma respondida na conclusão?
Toda citação direta tem aspas, autor, ano e página?
Toda obra citada no texto está nas referências — e toda obra das referências foi citada no texto?
Todo documento de arquivo está identificado de modo que outra pessoa o encontre?
As entrevistas têm autorização de uso, e o trabalho informa se houve apreciação ética?
Você leu o texto em voz alta? Frase que trava na leitura trava na banca.
Alguém que não é da sua área leu e entendeu a pergunta?
Para saber mais
Marc Bloch, Apologia da História, ou o ofício de historiador — escrito durante a ocupação da França e deixado incompleto; é o melhor primeiro livro de método que existe.
Jacques Le Goff, História e memória — para a discussão de documento e monumento.
Carlo Ginzburg, Sinais: raízes de um paradigma indiciário — sobre ler o detalhe e o indício.
Resolução CNS nº 510/2016 e a Plataforma Brasil — ética em pesquisa nas ciências humanas e sociais.
Lei nº 8.159/1991 (arquivos) e Lei nº 12.527/2011 (acesso à informação).
Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional; Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES; BDTD.
ABNT NBR 6023:2018 e NBR 10520:2023 — e o manual de normalização da sua universidade.
Cursos "Teoria da História e Historiografia", "Ensino de História: BNCC e sala de aula", "História da África e Cultura Afro-Brasileira" e "Português e Redação para Concursos", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.