Cuidados diários, saúde, segurança e direitos da pessoa idosa: 8 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 8
O cuidador de idosos
O Brasil está envelhecendo, e cada vez mais famílias precisam de alguém preparado para cuidar de uma pessoa idosa. Neste módulo você vai conhecer o papel do cuidador, o que faz parte e o que não faz parte da função e como construir uma boa relação com a pessoa cuidada, a família e a equipe de saúde.
Quem é o cuidador
Segundo o Guia Prático do Cuidador, do Ministério da Saúde, cuidador é a pessoa, da família ou da comunidade, que presta cuidados a alguém com alguma limitação física ou mental, com ou sem remuneração. Ele atua como um elo entre a pessoa cuidada, a família e a equipe de saúde.
A ocupação de cuidador de idosos está descrita na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), e o profissional pode trabalhar em casas de família, instituições de longa permanência para idosos (ILPIs), hospitais, centros-dia e em serviços de cuidado por hora.
O que faz parte da função
Ajudar nas atividades do dia a dia: higiene, vestir-se, alimentação, locomoção.
Oferecer os remédios nos horários e doses prescritos.
Mudar a posição da pessoa acamada e prevenir quedas e lesões na pele.
Estimular a autonomia, a memória, a conversa, o movimento e o convívio.
Acompanhar em consultas, exames e passeios.
Observar mudanças na saúde e no comportamento e comunicar à família e à equipe de saúde.
Manter o ambiente organizado, limpo e seguro.
O que não faz parte da função
O cuidador não substitui os profissionais de saúde. Ele não deve:
Fazer procedimentos técnicos de enfermagem, como aplicar injeções, passar ou recolocar sondas e fazer curativos complexos, a não ser que tenha formação para isso.
Mudar, suspender ou acrescentar remédios sem orientação médica.
Tomar decisões sobre o tratamento, o dinheiro ou os bens da pessoa idosa.
Postura profissional
Respeito: chame a pessoa pelo nome, como ela prefere, e evite apelidos infantis como "vovozinho" ou "meu bebê". A pessoa idosa é adulta e tem sua história.
Autonomia: deixe que ela faça tudo o que consegue fazer sozinha, mesmo que demore mais. Fazer tudo por ela acelera a perda de capacidades.
Privacidade: feche a porta e cubra o corpo durante a higiene; peça licença antes de tocar.
Sigilo: o que acontece na casa e as informações de saúde não devem ser comentados com outras pessoas.
Honestidade: nunca aceite dinheiro, cartões, senhas ou presentes de valor da pessoa idosa sem o conhecimento da família.
Relação com a família e com a equipe de saúde
Combine por escrito com a família: horários, tarefas, rotina da pessoa, remédios, contatos de emergência, o que fazer se houver uma intercorrência e como será feito o registro do dia. Mantenha um caderno de registro com alimentação, líquidos, evacuações, sono, remédios dados, humor e qualquer alteração. Esse caderno é muito útil nas consultas.
Direitos de quem trabalha
O cuidador contratado diretamente por uma família para trabalhar na casa mais de dois dias por semana é considerado empregado doméstico pela Lei Complementar nº 150/2015, com direito a carteira assinada, férias, 13º salário, FGTS e outros direitos. Também é possível trabalhar como autônomo ou por meio de empresas de cuidado. Informe-se sobre o seu caso e mantenha tudo combinado por escrito.
Para refletir
Pense em uma pessoa idosa da sua família ou do seu bairro. Como você gostaria que ela fosse tratada por um cuidador? E como você gostaria de ser tratado(a) quando envelhecer?
Atividade prática
Crie um modelo de ficha da pessoa cuidada (nome, idade, doenças, alergias, remédios e horários, contatos, preferências e hábitos) e um modelo de registro diário com os itens citados neste módulo.
Módulo 2 de 8
O envelhecimento e a saúde da pessoa idosa
Envelhecer não é sinônimo de ficar doente. Algumas mudanças são naturais e esperadas; outras são sinais de que algo não vai bem. Saber diferenciar umas das outras ajuda o cuidador a respeitar o ritmo da pessoa e a agir rápido quando necessário.
Quem é considerado idoso
No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) considera idosa a pessoa com 60 anos ou mais. Mas as pessoas envelhecem de formas muito diferentes: há pessoas de 85 anos independentes e ativas e pessoas de 65 anos que precisam de muita ajuda.
Mudanças comuns do envelhecimento
Área
O que costuma mudar
Como o cuidador ajuda
Visão e audição
Dificuldade para enxergar de perto e com pouca luz; perda auditiva, principalmente de sons agudos.
Boa iluminação, óculos limpos, falar de frente, devagar e com clareza, verificar o aparelho auditivo.
Músculos e ossos
Perda de força e de massa muscular, ossos mais frágeis, articulações rígidas.
Estimular caminhadas e exercícios orientados, prevenir quedas.
Pele
Mais fina, seca e sensível; machuca com facilidade.
Hidratar, secar bem as dobras, evitar água muito quente e esfregar com força.
Sede e digestão
Menos sensação de sede, intestino mais lento, alterações no paladar.
Oferecer água várias vezes ao dia, alimentos com fibras, refeições coloridas e saborosas.
Sono
Sono mais leve, acorda mais vezes à noite.
Rotina regular, atividades durante o dia, evitar cochilos longos à tarde.
Memória
Pode ficar um pouco mais lenta para lembrar nomes ou encontrar objetos.
Agenda, lembretes, conversa e atividades que estimulem a mente.
Esquecimentos que atrapalham a vida diária, como se perder em lugares conhecidos, esquecer de comer ou não reconhecer pessoas próximas, não são normais do envelhecimento e precisam de avaliação médica (Módulo 3).
Doenças mais frequentes
Hipertensão (pressão alta) e diabetes: exigem remédios nos horários certos, alimentação adequada e acompanhamento regular.
Osteoporose: ossos frágeis, que quebram com quedas leves.
Artrose: dor e rigidez nas articulações.
Doenças do coração e AVC, que podem deixar sequelas na fala e nos movimentos.
Demências, como a doença de Alzheimer (Módulo 3).
Depressão, que muitas vezes é confundida com "coisa da idade".
Atenção: na pessoa idosa, os sinais podem ser diferentes
Uma infecção (urinária ou pneumonia, por exemplo) pode aparecer sem febre e se manifestar como confusão repentina, sonolência, agitação, quedas, falta de apetite ou piora súbita da capacidade de fazer as coisas. Essa confusão aguda, chamada de delirium, é diferente da demência: começa de repente e pede avaliação médica rápida. Se a pessoa "de um dia para o outro" ficou diferente, comunique a família e a equipe de saúde imediatamente.
Envelhecimento ativo
A Organização Mundial da Saúde incentiva o envelhecimento ativo: manter o corpo em movimento, a mente estimulada, o convívio social e a participação na família e na comunidade. O cuidador pode ajudar incentivando passeios, conversas, leitura, música, jogos, trabalhos manuais e contato com amigos, grupos de convivência e atividades religiosas, de acordo com os gostos da pessoa.
Mantenha também a caderneta de vacinação em dia, com a vacina da gripe todos os anos e as demais indicadas pela equipe de saúde, e as consultas de rotina.
Para refletir
Por que é perigoso achar que tudo o que acontece com a pessoa idosa é "normal da idade"?
Atividade prática
Converse com uma pessoa idosa que você conhece sobre o que mudou no corpo e na rotina dela com o passar dos anos e sobre o que ela ainda gosta muito de fazer. Anote três ideias de atividades que um cuidador poderia incentivar para ela.
Módulo 3 de 8
Comunicação, demências e saúde emocional
Cuidar é, antes de tudo, se relacionar. Uma comunicação respeitosa torna o dia a dia mais leve, e entender as demências ajuda o cuidador a lidar com comportamentos difíceis sem levar para o lado pessoal.
Dicas para uma boa comunicação
Fique de frente, na altura dos olhos, em um ambiente sem barulho.
Fale devagar e com clareza, sem gritar. Frases curtas, uma informação por vez.
Espere a resposta com paciência, sem completar as frases da pessoa.
Use gestos, objetos e expressões do rosto para ajudar.
Escute as histórias, mesmo que já as tenha ouvido. Elas são importantes para a pessoa.
Inclua a pessoa nas conversas e decisões. Não fale dela como se ela não estivesse ali.
O que são as demências
Demência é o nome dado a um grupo de doenças que causam perda progressiva da memória e de outras capacidades mentais (linguagem, orientação, julgamento), a ponto de atrapalhar a vida diária. A mais comum é a doença de Alzheimer. Outros tipos são a demência vascular (ligada a AVCs) e a demência com corpos de Lewy. O diagnóstico e o tratamento são feitos por médicos.
Na demência, a pessoa pode: repetir perguntas, esquecer fatos recentes, se perder, confundir dia e noite, não reconhecer pessoas, ter dificuldade para se vestir e comer, ficar desconfiada, agitada ou triste. No fim da tarde, muitas pessoas ficam mais confusas e agitadas.
Como lidar no dia a dia
Não discuta nem corrija o tempo todo. Se a pessoa diz que precisa ir buscar a mãe, que já faleceu, acolha o sentimento ("Você está com saudade dela, né? Me conta como ela era") em vez de insistir na realidade.
Mantenha a rotina: mesmos horários, mesmos lugares, poucas mudanças.
Simplifique as tarefas: dê uma instrução por vez e ofereça poucas opções ("Você quer a blusa azul ou a verde?").
Procure a causa de uma agitação: dor, fome, sede, frio, calor, vontade de ir ao banheiro, barulho, cansaço.
Distraia com carinho: uma música de que ela gosta, um passeio, fotos antigas, uma tarefa simples.
Segurança: tranque produtos perigosos, tire as chaves do fogão ou use travas, mantenha portas de saída seguras e coloque na pessoa uma identificação com nome e telefone, para o caso de ela se perder.
Estimulação
Atividades de que a pessoa gosta mantêm o humor e as capacidades por mais tempo: ouvir e cantar músicas antigas, olhar fotos, dobrar roupas, regar plantas, fazer receitas simples, jogos de memória, pintura, caminhadas. O objetivo é o prazer e a participação, e não o acerto.
Tristeza, solidão e depressão
Perdas (de pessoas queridas, da saúde, da independência, do trabalho) são comuns nesta fase. Fique atento se a pessoa passar a maior parte do tempo triste, sem interesse pelo que gostava, isolada, sem apetite ou com alterações do sono. Depressão tem tratamento e não é "coisa da idade". Comunique à família e à equipe de saúde. Se a pessoa falar em morrer ou em se machucar, avise a família imediatamente e procure ajuda de um serviço de saúde.
Para refletir
Imagine que você acorda em um lugar que não reconhece, cercado de pessoas que não sabe quem são. Como você se sentiria? Como isso ajuda a entender alguns comportamentos da pessoa com demência?
Atividade prática
Monte uma "caixa de memórias" (real ou planejada no papel) para uma pessoa idosa: fotos, músicas, objetos e lembranças que possam ser usados em conversas e atividades. Explique como você a usaria em um momento de agitação.
Módulo 4 de 8
Higiene e conforto
A higiene é um momento íntimo, que exige respeito, delicadeza e atenção à segurança. Bem feita, ela previne infecções e feridas na pele e ajuda a pessoa a se sentir bem consigo mesma.
Princípios gerais
Explique o que vai fazer antes de começar e peça a participação da pessoa.
Preserve a privacidade: porta fechada, corpo coberto com toalha nas partes que não estão sendo lavadas.
Separe tudo antes: toalhas, roupas, sabonete, fralda, creme. Assim você não deixa a pessoa sozinha.
Verifique a temperatura da água: morna, nunca quente, porque a pele da pessoa idosa queima com facilidade.
Lave as mãos antes e depois e use luvas quando houver contato com urina, fezes ou feridas.
Banho de chuveiro
Use cadeira de banho, tapete antiderrapante e barras de apoio.
Nunca deixe a pessoa sozinha se ela tiver risco de queda ou tontura.
Seque muito bem as dobras: axilas, virilha, debaixo das mamas, atrás dos joelhos e entre os dedos, para evitar assaduras e micoses.
Hidrate a pele com creme depois do banho.
Banho no leito
Para pessoas acamadas, o Guia Prático do Cuidador orienta: proteger o colchão com plástico, lavar por partes, secando cada uma antes de passar para a próxima, seguindo a ordem: rosto e cabeça, braços e tórax, barriga, pernas, costas e, por último, as partes íntimas. Troque a água quando ficar suja ou fria. Aproveite para observar a pele.
Higiene íntima e incontinência
Faça a higiene sempre que a pessoa urinar ou evacuar. Nas mulheres, limpe de frente para trás. Troque as fraldas com frequência, sem deixar a pele úmida, e use creme de proteção se orientado. Ofereça o banheiro, o papagaio ou a comadre em horários regulares, o que ajuda a reduzir os escapes. Trate o assunto com naturalidade, sem broncas nem comentários que envergonhem.
Boca e próteses dentárias
Escove os dentes (ou ajude a escovar) depois das refeições e antes de dormir.
Retire as dentaduras e limpe fora da boca, com escova e sabão neutro ou produto próprio, sobre uma pia com água ou uma toalha, para não quebrar se cair. Limpe também a gengiva e a língua.
À noite, se o dentista orientar, deixe a prótese em um copo com água limpa. Nunca use água sanitária ou álcool.
Feridas, sangramentos ou dor na boca devem ser comunicados à família.
Outros cuidados
Unhas: corte retas, depois do banho. Pessoas com diabetes devem ter os pés examinados todos os dias e as unhas cortadas com cuidado redobrado; em caso de dúvida, peça orientação à equipe de saúde.
Cabelos: lave e penteie de acordo com o gosto da pessoa.
Roupas: confortáveis, fáceis de vestir e adequadas ao clima. Deixe a pessoa escolher sempre que possível.
Autoestima: perfume, maquiagem, barba feita, acessórios de que gosta. Tudo isso importa.
Para refletir
Como você se sentiria se precisasse de ajuda de outra pessoa para tomar banho? O que faria você se sentir mais respeitado(a) nesse momento?
Atividade prática
Escreva o passo a passo completo de um banho no leito para uma pessoa acamada: materiais, preparo do ambiente, ordem de lavagem, cuidados com a privacidade e o que observar na pele.
Módulo 5 de 8
Alimentação, hidratação e medicamentos
Comer bem, beber água e tomar os remédios corretamente são pilares da saúde da pessoa idosa. Neste módulo você vai aprender os cuidados para uma alimentação segura, inclusive para quem tem dificuldade para engolir, e a organizar os remédios sem erros.
Alimentação saudável
O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda basear a alimentação em alimentos in natura ou minimamente processados (arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, ovos, carnes, leite) e evitar os ultraprocessados. Para a pessoa idosa, alguns cuidados a mais:
Refeições em horários regulares, em porções menores e mais vezes ao dia, se o apetite for pequeno.
Proteínas (feijão, ovos, carnes, leite) em todas as refeições principais, para ajudar a manter os músculos.
Fibras (frutas, verduras, legumes, cereais integrais) e água para evitar a prisão de ventre.
Respeitar as orientações do médico ou do nutricionista para quem tem diabetes, pressão alta ou outras doenças.
Pratos coloridos, bem temperados com ervas, e refeições em companhia estimulam o apetite.
Hidratação
A pessoa idosa sente menos sede e pode ficar desidratada sem perceber. Ofereça água e outros líquidos (sucos naturais, chás, sopas) várias vezes ao dia, em pequenos goles, mesmo que ela não peça. O Guia Prático do Cuidador fala em cerca de 6 a 8 copos por dia, salvo orientação médica diferente (algumas doenças do coração e dos rins exigem restrição). Sinais de desidratação: boca seca, urina escura e em pouca quantidade, sonolência, confusão, tontura.
Dificuldade para engolir (disfagia)
Depois de um AVC, na doença de Parkinson, nas demências ou com a idade avançada, a pessoa pode ter dificuldade para engolir. Isso aumenta o risco de engasgo e de pneumonia por aspiração (quando comida ou líquido vão para o pulmão).
Sinais de alerta: tosse ou pigarro durante ou logo depois de comer e beber, voz "molhada", engasgos frequentes, comida parada na boca, refeições muito demoradas, perda de peso.
A pessoa deve comer sentada, com o tronco bem ereto, nunca deitada. Se estiver acamada, eleve bem a cabeceira e apoie as costas com travesseiros.
Ofereça pequenas porções, devagar, esperando engolir antes da próxima colherada.
Evite distrações (TV alta, conversas paralelas) durante a refeição.
Mantenha a pessoa sentada por pelo menos 30 minutos depois de comer.
Siga a consistência indicada pelo fonoaudiólogo ou pela equipe de saúde (alimentos pastosos, líquidos engrossados). Comunique os sinais de alerta para que a pessoa seja avaliada.
Se a pessoa usa sonda para se alimentar, siga à risca a orientação da equipe sobre posição, velocidade e higiene. Se a sonda sair do lugar, não tente recolocá-la: comunique a equipe de saúde.
Medicamentos sem erro
Tenha uma tabela de horários com o nome de cada remédio, a dose, o horário e para que serve, feita a partir da receita.
Use caixas organizadoras por dia e horário e confira sempre antes de dar.
Siga exatamente a receita: nunca mude a dose, não suspenda e não acrescente remédios por conta própria, nem mesmo "naturais" ou chás.
Não triture comprimidos nem abra cápsulas sem perguntar ao farmacêutico ou ao médico: alguns perdem o efeito ou fazem mal.
Guarde os remédios em local seco, fresco, longe da luz e do alcance de crianças e de pessoas confusas, separados dos remédios de outros membros da família.
Observe se aparecem efeitos como tontura, sonolência excessiva, alergia ou quedas depois de um remédio novo e comunique.
Verifique antes de feriados e finais de semana se há remédios suficientes.
Muitos remédios de uso contínuo podem ser retirados gratuitamente pelo SUS ou pelo programa Farmácia Popular, com receita.
Para refletir
Por que a pessoa idosa corre mais risco de erros com os remédios? Pense no número de remédios, na visão, na memória e nas embalagens parecidas.
Atividade prática
Monte uma tabela de medicamentos para uma pessoa fictícia que toma 5 remédios em horários diferentes (invente nomes simples, como "Remédio A"). Inclua colunas para dose, horário, forma de tomar (com ou sem alimento) e um campo para marcar que foi dado.
Módulo 6 de 8
Mobilidade, prevenção de quedas e de lesões por pressão
As quedas são uma das principais causas de fraturas, internações e perda de independência na velhice. Já a pessoa acamada corre o risco de desenvolver feridas na pele. Neste módulo você vai aprender a prevenir esses problemas e a movimentar a pessoa com segurança para ela e para você.
Prevenção de quedas em casa
Pisos: retire tapetes soltos, fios e objetos do caminho; mantenha o chão seco.
Iluminação: boa luz em todos os cômodos, interruptores fáceis de alcançar e luz noturna no caminho entre o quarto e o banheiro.
Banheiro: barras de apoio perto do vaso e no box, tapete antiderrapante, cadeira de banho.
Escadas: corrimão dos dois lados e degraus sinalizados.
Móveis: cama e cadeiras firmes, na altura certa; objetos de uso diário ao alcance, sem precisar subir em bancos.
Calçados: fechados, firmes, com sola antiderrapante. Evite chinelos soltos e andar só de meias.
Pessoa: óculos limpos e com o grau certo, uso correto de bengala ou andador, levantar-se devagar (primeiro sentar na beira da cama por alguns instantes) e exercícios de força e equilíbrio orientados.
E se a pessoa cair?
Mantenha a calma e não levante a pessoa às pressas.
Pergunte o que aconteceu, onde dói, se bateu a cabeça.
Se houver dor forte (principalmente no quadril), deformidade, impossibilidade de se mexer, sangramento, batida na cabeça, confusão ou desmaio, não mova a pessoa: mantenha-a aquecida e ligue para o 192.
Se não houver lesões e ela se sentir capaz, ajude-a a se virar de lado, ficar de joelhos e se apoiar em uma cadeira firme para se levantar devagar.
Comunique a queda à família e à equipe de saúde, mesmo que pareça que não houve nada. Toda queda precisa ser investigada.
Movimentando a pessoa com segurança
Antes de qualquer transferência, explique o que vai acontecer e peça a participação da pessoa. Para proteger a sua coluna:
Afaste os pés, na largura dos ombros, e dobre os joelhos em vez de curvar as costas.
Fique bem perto da pessoa e mantenha as costas retas.
Não gire o tronco: vire o corpo inteiro, mexendo os pés.
Trave as rodas da cadeira de rodas e da cama antes da transferência.
Peça ajuda de outra pessoa quando a pessoa cuidada for pesada, não colaborar ou sentir dor. Existem equipamentos, como tábua de transferência e guincho, que facilitam o trabalho; a equipe de saúde pode orientar.
Da cama para a cadeira: coloque a cadeira ao lado da cama, com as rodas travadas; ajude a pessoa a se sentar na beira da cama com os pés no chão; espere um pouco para evitar tontura; fique de frente, segure-a pela cintura (ou por um cinto de transferência), conte até três, levantem juntos, girem devagar e sente-a na cadeira.
Lesões por pressão (escaras)
São feridas que surgem quando a pele fica muito tempo pressionada contra o colchão ou a cadeira, principalmente sobre ossos salientes: região do cóccix, quadril, calcanhares, cotovelos, ombros, nuca e orelhas. Elas começam como uma mancha avermelhada que não desaparece e podem virar feridas profundas.
Mude a posição da pessoa acamada pelo menos a cada 2 horas, alternando entre costas e lados, com travesseiros entre os joelhos e apoiando as costas. Na cadeira, incentive pequenas mudanças de posição com frequência.
Mantenha os lençóis esticados, limpos e secos, sem migalhas ou dobras.
Mantenha a pele limpa, seca e hidratada, e troque as fraldas logo que estiverem molhadas.
Use travesseiros ou almofadas para deixar os calcanhares "flutuando", sem encostar no colchão.
Não massageie áreas avermelhadas nem sobre os ossos salientes; não use luvas com água ou "rodinhas" de espuma.
Uma boa alimentação e hidratação ajudam a pele a resistir.
Examine a pele todos os dias e comunique qualquer mancha, bolha ou ferida à equipe de saúde. O colchão adequado (como o de ar ou o de espuma especial) pode ser indicado por ela.
Para refletir
Muitos cuidadores desenvolvem dores nas costas. Que hábitos deste módulo podem proteger a sua saúde ao longo dos anos?
Atividade prática
Faça uma vistoria de segurança em uma casa onde mora (ou poderia morar) uma pessoa idosa, cômodo por cômodo, com a lista de prevenção de quedas. Anote os riscos encontrados e a solução de cada um. Depois, monte uma tabela de mudança de posição de 2 em 2 horas para um dia inteiro.
Módulo 7 de 8
Sinais de alerta, emergências e direitos da pessoa idosa
O cuidador é quem está mais perto e, por isso, é quem primeiro percebe quando algo não vai bem. Neste módulo você vai aprender a reconhecer sinais de alerta, a agir em emergências e a conhecer os direitos da pessoa idosa, incluindo a proteção contra qualquer forma de violência.
Sinais que devem ser comunicados à família e à equipe de saúde
Confusão, agitação ou sonolência diferentes do habitual.
Febre, calafrios, tosse com catarro, falta de ar.
Urina escura, com cheiro forte, ardor ou dor para urinar; ausência de evacuação por vários dias; diarreia.
Perda de apetite, vômitos, emagrecimento.
Manchas, feridas, inchaço ou mudanças de cor e temperatura na pele.
Quedas, tonturas, dor nova ou que piora.
Alterações importantes na pressão arterial ou na glicemia, se forem medidas em casa.
Emergências: ligue para o 192
Sinais de AVC (teste SAMU): rosto torto ao sorrir, braço que cai, fala enrolada. Anote o horário em que começou.
Dor ou aperto no peito, falta de ar intensa, suor frio.
Desmaio, convulsão, pessoa que não acorda.
Engasgo com dificuldade para respirar.
Queda com suspeita de fratura ou batida na cabeça.
Sangramento que não para.
Mantenha na casa uma folha com o nome completo da pessoa, documento, cartão do SUS ou do plano de saúde, doenças, alergias, lista de remédios e telefones da família, para entregar à equipe de socorro. O curso "Primeiros Socorros no Dia a Dia", aqui no Cursos Conecta, aprofunda o que fazer nessas situações.
Hipoglicemia na pessoa com diabetes
Tremor, suor frio, fome, confusão e sonolência podem ser sinais de açúcar baixo no sangue. O Guia Prático do Cuidador orienta: se a pessoa estiver consciente e conseguir engolir, oferecer cerca de 15 gramas de açúcar de absorção rápida (por exemplo, uma colher de sopa de açúcar em água ou meio copo de suco de fruta comum) e reavaliar em 15 minutos. Se ela estiver desmaiada ou não conseguir engolir, não dê nada pela boca e ligue para o 192.
O Estatuto da Pessoa Idosa
A Lei nº 10.741/2003, chamada de Estatuto da Pessoa Idosa desde a Lei nº 14.423/2022, garante às pessoas com 60 anos ou mais, entre outros direitos:
Prioridade no atendimento em serviços públicos e privados, com prioridade especial para quem tem mais de 80 anos.
Atenção integral à saúde pelo SUS, incluindo remédios de uso contínuo.
Proteção contra qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão.
Respeito à sua autonomia, identidade, valores, crenças e espaços pessoais.
O Estatuto também define como crimes, entre outros, abandonar a pessoa idosa, expor sua saúde a perigo (por exemplo, privando-a de alimentos e cuidados) e se apropriar de seus bens, pensão ou aposentadoria.
Tipos de violência contra a pessoa idosa
Tipo
Exemplos
Física
Empurrar, bater, amarrar, segurar com força.
Psicológica
Humilhar, ameaçar, gritar, isolar, tratar como criança.
Negligência e abandono
Deixar sem comida, sem higiene, sem remédios, sem cuidados médicos, sozinha por longos períodos.
Financeira
Usar o cartão, a aposentadoria ou os bens da pessoa sem autorização; forçar empréstimos ou a assinatura de documentos.
Sexual
Qualquer ato sexual sem consentimento.
Se você perceber ou suspeitar de violência, denuncie pelo Disque 100 (gratuito, pode ser anônimo), procure o Conselho Municipal da Pessoa Idosa, a delegacia (de preferência a especializada, se houver), o Ministério Público ou a assistência social do município (CRAS/CREAS). Em caso de perigo imediato, ligue 190.
Para refletir
A negligência e a violência financeira muitas vezes são praticadas por pessoas da própria família. Por que você acha que esses casos são tão pouco denunciados?
Atividade prática
Monte a folha de emergência descrita neste módulo para uma pessoa fictícia e escreva o que você diria ao 192 em caso de suspeita de AVC.
Módulo 8 de 8
Cuidar de quem cuida e a rotina de trabalho
Cuidar de outra pessoa exige muito do corpo e das emoções. Um cuidador cansado, sobrecarregado e sozinho não consegue cuidar bem. Neste módulo você vai aprender a organizar a rotina, a pedir ajuda e a cuidar da sua própria saúde.
Organizando a rotina
Uma rotina previsível traz segurança para a pessoa cuidada e facilita o trabalho. Organize os horários de acordar, higiene, refeições, remédios, mudanças de posição, atividades, descanso e sono. Mantenha o registro diário atualizado e combine com a família uma forma de passar as informações na troca de turno, por escrito ou por mensagem, com os principais acontecimentos do dia.
Sinais de sobrecarga
Fique atento a: cansaço que não passa, irritação, dificuldade para dormir, dores no corpo, tristeza, choro fácil, perda da paciência, isolamento dos amigos e sensação de que a vida se resume a cuidar. O Guia Prático do Cuidador orienta que o cuidador procure atendimento de saúde sempre que perceber sinais de desgaste físico ou mental.
Cuidando de si
Descanso: respeite suas folgas e horários de sono. Ninguém consegue cuidar 24 horas por dia, todos os dias.
Divida as tarefas: converse com a família sobre a divisão de responsabilidades e aceite ajuda.
Corpo: alongamentos, caminhadas e atenção à postura ajudam a prevenir dores.
Vida própria: mantenha amizades, lazer e atividades de que gosta.
Emoções: é normal sentir cansaço, raiva ou culpa às vezes. Converse com alguém de confiança e busque apoio profissional quando precisar.
Grupos de apoio: muitas cidades têm grupos de cuidadores e associações de familiares de pessoas com Alzheimer, onde é possível trocar experiências.
A rede de apoio
Serviço
Como pode ajudar
Unidade Básica de Saúde (UBS)
Consultas, vacinas, acompanhamento de doenças crônicas, visitas domiciliares da equipe de Saúde da Família e do agente comunitário.
Serviço de Atenção Domiciliar (Melhor em Casa)
Atendimento em casa para pessoas que precisam de cuidados de saúde mais intensos, onde o serviço existe.
CRAS e CREAS
Assistência social, benefícios, grupos de convivência e apoio em situações de violação de direitos.
Centros-dia e grupos de convivência
Atividades e cuidados durante o dia, oferecendo descanso para a família e convívio para a pessoa idosa.
Quando o fim da vida se aproxima
Em doenças avançadas, a equipe de saúde pode indicar os cuidados paliativos, que têm como foco o conforto, o alívio da dor e de outros sintomas e a dignidade da pessoa, com apoio à família. O cuidador ajuda mantendo a pessoa limpa, confortável, bem posicionada, com a boca hidratada, acompanhada e respeitada nos seus desejos. Viver o luto também faz parte do trabalho de quem cuida, e é importante buscar apoio.
Para refletir
O que você faz hoje para cuidar da sua própria saúde e do seu bem-estar? O que poderia começar a fazer?
Atividade prática
Monte uma rotina semanal de cuidado para uma pessoa idosa fictícia e, ao lado, a sua própria rotina de autocuidado, com horários de descanso, atividades de lazer e pessoas a quem você pode pedir ajuda. Pesquise quais serviços da rede de apoio existem na sua cidade.
Para saber mais
Ministério da Saúde: Guia Prático do Cuidador.
Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003).
Ministério da Saúde: Guia Alimentar para a População Brasileira.
Cursos livres "Primeiros Socorros no Dia a Dia" e "Boas Práticas na Manipulação de Alimentos", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 20 questões sobre os 8 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 14. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.