5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
Por que contar histórias
Antes de existir a escrita, existia a história contada. Neste módulo você vai entender de onde vem essa prática e o que ela faz pelas crianças e por quem conta.
Uma arte muito antiga
Durante milhares de anos, a principal forma de guardar o conhecimento de um povo foi a palavra falada. Mitos, lendas, receitas, regras de convivência e a memória das famílias passavam de geração em geração pela voz de quem contava.
Em muitas culturas, essa tarefa tinha até um nome próprio. Na África Ocidental, os griôs são os guardiões da memória da comunidade e aprendem desde cedo a narrar a história do seu povo. Entre os povos indígenas brasileiros, os mais velhos contam as narrativas sobre a origem do mundo, dos rios e dos animais. No interior do Brasil, a contação acontecia na roda, na varanda ou em volta do fogão a lenha.
No Brasil, o folclorista Luís da Câmara Cascudo reuniu muitas dessas narrativas no livro Contos Tradicionais do Brasil. Ele mostrou como a nossa tradição oral mistura heranças indígenas, africanas e europeias.
Ler e contar não são a mesma coisa
As duas práticas são valiosas, mas funcionam de jeitos diferentes:
Leitura em voz alta
Contação de histórias
Texto
Fiel às palavras do autor
Recontado com as palavras de quem conta
Livro
Presente, com as ilustrações
Pode não estar presente
Olhar
Dividido entre o livro e o público
Livre, voltado para o público
Imagens
Oferecidas pelo ilustrador
Criadas na imaginação de quem escuta
Quando a história é de um autor conhecido, com texto literário cuidadoso, muitas vezes o melhor é ler, respeitando as palavras dele. Contos populares, lendas e fábulas, que sempre circularam de boca em boca, são perfeitos para contar.
O que a história faz pela criança
Linguagem: amplia o vocabulário e apresenta estruturas de frase mais elaboradas do que as da conversa do dia a dia.
Escuta e atenção: a criança aprende a acompanhar uma sequência de acontecimentos do começo ao fim.
Imaginação: sem imagens prontas, ela cria na mente os lugares, os personagens e as cenas.
Emoções: medo, ciúme, coragem e perda aparecem num lugar seguro, onde podem ser sentidos e conversados.
Vínculo: o momento da história cria proximidade entre quem conta e quem escuta.
Caminho para a leitura: quem escuta boas histórias tem vontade de ler outras sozinho.
Quem ouve histórias desde pequeno aprende que as palavras podem criar mundos inteiros.
Para refletir
Qual história você mais ouviu na infância? Quem contava, onde e como? Anote o que você lembra da voz, do lugar e do que sentia. Essa lembrança é a prova de que a contação deixa marcas.
Atividade prática
Converse com uma pessoa mais velha da sua família ou da sua comunidade e peça que ela conte uma história que ouviu quando era criança. Escreva um resumo de até 10 linhas com o início, o problema e o final da história. Ela pode ser usada nas próximas atividades.
Módulo 2 de 5
Como escolher a história
Uma boa contação começa muito antes de abrir a boca: começa na escolha. A regra de ouro é simples: conte histórias de que você gosta, pensando em quem vai ouvir.
Você precisa gostar da história
O público percebe quando o contador não se envolve com o que conta. Uma história que emociona, diverte ou intriga você tem muito mais chance de causar o mesmo efeito nas crianças. Por isso, leia bastante e monte aos poucos o seu próprio repertório.
Pense em quem vai ouvir
Idade
O que funciona
Exemplos de tipo de história
0 a 3 anos
Histórias bem curtas, com repetição, rimas, sons e gestos. O ritmo importa mais que o enredo.
Enredo simples e claro, poucos personagens, um problema e uma solução. Animais que falam agradam muito.
Contos de fadas, fábulas, contos de animais
7 a 10 anos
Tramas com mais reviravoltas, suspense, humor e desafios. Gostam de heróis espertos.
Lendas, contos de assombração leves, contos de esperteza
Essas faixas são uma orientação, não uma regra. Uma turma acostumada a ouvir histórias acompanha narrativas mais longas mais cedo.
Onde encontrar boas histórias
Contos populares brasileiros: histórias de Pedro Malasartes, contos de bichos e contos de encantamento.
Lendas do folclore: Curupira, Iara, Boitatá, Saci, Vitória-régia e as lendas da sua região.
Fábulas: narrativas curtas com animais e uma lição, como as de Esopo e La Fontaine.
Contos de outras culturas: contos africanos, indígenas, árabes e orientais ampliam o olhar das crianças.
A memória da comunidade: as histórias dos avós e dos vizinhos também são repertório.
Sinais de uma boa história para contar
Tem começo, meio e fim bem definidos.
Tem um problema que prende a atenção até ser resolvido.
Tem poucos personagens, fáceis de diferenciar.
Tem repetições ou frases que voltam, que as crianças podem acompanhar.
Cabe no tempo que você tem.
Cuidados na escolha
Algumas histórias tradicionais trazem estereótipos sobre pessoas negras, indígenas, mulheres ou pessoas com deficiência. Você pode deixar essa história de lado, adaptar o trecho ou contá-la e depois conversar sobre isso com as crianças mais velhas.
Histórias com medo também têm lugar: elas ajudam a criança a lidar com o que assusta, desde que o final traga segurança. Observe o público. Se alguém ficar muito aflito, suavize.
Atividade prática
Escolha três histórias para o seu repertório: uma para crianças pequenas, uma para crianças de 4 a 6 anos e uma para crianças de 7 a 10 anos. Para cada uma, anote a fonte, o tempo aproximado e por que ela combina com aquela idade.
Módulo 3 de 5
Preparando a história
Contador não decora texto: conhece a história tão bem que consegue contá-la com as próprias palavras. Este módulo mostra um jeito prático de chegar lá.
Entenda a estrutura
Quase toda história segue um caminho parecido:
Situação inicial: quem são os personagens, onde e quando vivem.
Conflito: algo acontece e muda tudo, e surge um problema.
Desenvolvimento: as tentativas de resolver o problema, muitas vezes em três etapas.
Clímax: o momento de maior tensão.
Desfecho: o problema se resolve e a vida encontra um novo equilíbrio.
Se você consegue dizer cada uma dessas partes em uma frase, já entendeu a história.
Memorize a sequência, não as palavras
Tentar decorar palavra por palavra deixa a contação dura e dá medo de esquecer. Grave a sequência das cenas. Existem só dois tipos de trecho que vale decorar:
As frases que se repetem, como "Vou soprar, soprar e sua casa derrubar!"
A primeira e a última frase, para começar com segurança e terminar com força.
Faça o mapa da história
Em uma folha, desenhe ou escreva as cenas em sequência, como uma tirinha de 5 a 8 quadros. Não precisa saber desenhar: bonecos de palitinho funcionam. Olhar o mapa algumas vezes ajuda a guardar a história na memória visual.
Visualize e ensaie
Feche os olhos e "assista" à história: como é o lugar? Que cheiro tem? Como é a voz de cada personagem?
Conte em voz alta, sozinho, pelo menos três vezes. Não vale só pensar.
Grave o áudio no celular e escute. Repare onde você acelera, onde hesita e onde a história fica mais viva.
Conte para alguém de casa antes de contar para a turma.
Para refletir
Se você esquecer um trecho na hora, não pare para se desculpar. A história é sua: siga em frente e encaixe o detalhe mais adiante. O público quase nunca percebe.
Atividade prática
Escolha uma das histórias da atividade do Módulo 2. Escreva a estrutura dela em cinco frases, uma para cada parte. Depois faça o mapa da história em quadrinhos e grave um áudio contando essa história do início ao fim.
Módulo 4 de 5
Voz, corpo e olhar
A voz e o corpo são os principais instrumentos do contador. Você não precisa ser ator. Precisa estar presente e usar esses recursos a favor da história.
A voz
Volume: todos precisam ouvir, inclusive quem está no fundo. Falar baixinho de propósito, num momento de segredo, prende a atenção.
Ritmo: acelere nas cenas de perseguição e desacelere nos momentos de suspense ou de emoção.
Pausas: uma pausa antes da revelação importante vale mais que qualquer efeito. Não tenha medo do silêncio.
Entonação: a mesma frase muda de sentido com medo, alegria ou raiva. Varie para a história não ficar monótona.
Vozes dos personagens: use com moderação. Basta uma pequena mudança, como mais grave, mais aguda ou mais lenta, para o público saber quem está falando.
O corpo
Gestos devem ajudar a entender a história, não competir com ela. Um gesto largo para mostrar uma árvore enorme ou as mãos juntas para mostrar algo pequenino ajudam. Andar de um lado para o outro sem motivo distrai.
Uma boa postura é ficar em pé ou sentado de frente para o público, com o corpo relaxado. Com crianças pequenas, sentar na altura delas cria proximidade.
O olhar
O olhar é o que diferencia contar de recitar. Olhe para as crianças e percorra o grupo todo, para que cada uma sinta que a história é para ela. Em alguns momentos, olhar para "longe", como se visse a cena, leva o público junto para dentro da história.
Cuidados com a voz
Para quem conta histórias todos os dias, principalmente professores, cuidar da voz é essencial: beba água, evite gritar para chamar a atenção e prefira esperar o silêncio a falar mais alto que a turma.
Atividade prática
Pegue a frase "E foi então que a porta começou a abrir…" e diga em voz alta de cinco jeitos: com medo, com alegria, bem devagar, sussurrando e com uma pausa antes de "abrir". Depois conte a história que você preparou no Módulo 3 na frente de um espelho, prestando atenção nos gestos e no olhar.
Módulo 5 de 5
O momento da contação
Chegou a hora de juntar tudo: preparar o espaço, usar recursos com equilíbrio, envolver as crianças e aproveitar o que acontece depois que a história termina.
O espaço
Organize o grupo em roda ou em meia-lua, para que todos vejam você. Evite ficar de costas para uma janela muito clara, porque o público só verá sua silhueta. Um tapete, uma almofada ou um tecido no chão já transformam o lugar num "cantinho da história".
Rituais de início e fim
Um ritual avisa que a história vai começar e ajuda as crianças a se concentrarem. Pode ser uma música, um sino, uma caixa que se abre ou uma fórmula falada:
Para começar: "Era uma vez…", "Há muito, muito tempo…", "Num lugar muito longe daqui…"
Para terminar: "Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra!", "E viveram felizes para sempre."
Recursos de apoio
Objetos, fantoches, dedoches, aventais de história, caixas de surpresa, tecidos e instrumentos musicais enriquecem a contação. Use com equilíbrio: o recurso serve à história, e não o contrário. Uma história bem contada só com a voz costuma ser mais forte que uma cheia de objetos mal usados.
A participação das crianças
Convide o grupo a repetir as frases que voltam na história.
Peça sons: o vento, a chuva, os passos do lobo.
Faça perguntas rápidas que não quebrem o ritmo: "E vocês acham que ele abriu a porta?"
Interrupções vão acontecer. Acolha o comentário com um sorriso ou uma frase curta ("Que ideia boa! Vamos ver o que aconteceu…") e volte para a história. Se o grupo se dispersar muito, faça uma pausa, baixe a voz e retome no ponto de maior interesse.
Depois da história
O final da história é o começo de muitas possibilidades:
Uma conversa sobre os personagens e o que eles sentiram, sem transformar tudo em "qual é a moral".
O reconto pelas próprias crianças, com as palavras delas.
Desenho da parte favorita, dramatização ou criação de um novo final.
Apresentar o livro de onde a história veio, para quem quiser ler depois.
Às vezes o melhor é não fazer nada: deixar a história "assentar" em silêncio também é uma escolha.
Atividade prática final
Conte a história que você preparou para um grupo real, com crianças da sua família, da escola ou da vizinhança. Use um ritual de início e fim e pelo menos um momento de participação. Depois escreva um pequeno relato: o que funcionou, o que você mudaria e como as crianças reagiram.
Para saber mais
Fanny Abramovich. Literatura infantil: gostosuras e bobices.
Luís da Câmara Cascudo. Contos Tradicionais do Brasil.
Avaliação final
Avaliação final
São 10 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 7. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.