Módulo 1 de 5
A profissão, o salão e como o cabelo é por dentro
Cabeleireiro é a profissão de beleza com mais postos de trabalho no Brasil e a que mais permite crescer: dá para começar como assistente, virar cabeleireira, alugar cadeira e, um dia, ter o próprio salão. Tudo isso começa entendendo o que é um fio de cabelo — porque é o que explica por que uma química dá certo e outra queima.
A profissão e a lei
A Lei nº 12.592/2012 reconhece cabeleireiro e barbeiro entre os profissionais de higiene e embelezamento capilar. Não há conselho profissional, registro obrigatório nem diploma exigido; há, na mesma lei, o dever de obedecer às normas sanitárias, efetuando a esterilização de materiais e utensílios.
Formatos de trabalho:
| Formato | Como é |
| Empregada de salão | Carteira assinada, salário mais comissão. Férias, 13º, FGTS. |
| Profissional-parceira | Contrato escrito na forma da Lei nº 13.352/2016. O salão retém um percentual e recolhe os tributos. Sem contrato formalizado, ou exercendo funções diferentes das contratadas, a lei presume vínculo de emprego. |
| Autônoma / em casa | Agenda, material e risco por conta própria. MEI cobre a ocupação: CNPJ, nota fiscal, INSS. Portal do Empreendedor, gratuito. |
| Dona de salão | Outro negócio: aluguel, funcionários, alvará, vigilância sanitária, tributos. Vale o curso de gestão antes de abrir. |
A estrutura do fio
| Camada | O que é | Por que importa |
| Cutícula | A camada externa, formada por escamas sobrepostas como telhas. | Fechada, o cabelo brilha e não embaraça. Aberta, fica áspero, poroso e perde cor. Toda química abre a cutícula. |
| Córtex | O miolo, onde ficam as fibras de queratina, as pontes de ligação e a melanina (o pigmento). | É onde a coloração deposita cor, onde a descoloração retira pigmento e onde o alisamento quebra ligações. É o que dá resistência ao fio. |
| Medula | O canal central, nem sempre presente. | Pouca relevância prática. |
Duas ideias que explicam quase tudo na cadeira:
- O fio é tecido morto. Nada "nutre" ou "regenera" de verdade: o que os produtos fazem é repor, preencher, selar e proteger. Dano estrutural não se desfaz — cresce fora.
- Porosidade é o quanto a cutícula está aberta. Cabelo poroso absorve rápido, perde rápido, pega cor irregular e é o que mais arrebenta em química. Saber avaliar porosidade antes de qualquer procedimento é o que evita acidente.
Tipos de fio e curvatura
A classificação mais usada no Brasil separa: 1 — liso, 2 — ondulado, 3 — cacheado e 4 — crespo, com subdivisões A, B e C conforme a curvatura se fecha. Além da curvatura, avalie sempre espessura do fio (fino, médio, grosso), densidade (quantidade de fios) e porosidade.
Cabelo crespo e cacheado tem particularidades técnicas reais: a curvatura dificulta a descida da oleosidade natural do couro para o comprimento, o que o deixa mais seco; e cada curva é um ponto de fragilidade mecânica, o que o torna mais sujeito a quebra por manipulação. Trabalhar bem com esses cabelos exige mão mais leve, desembaraço com produto e do comprimento para a raiz, e corte com técnica própria — fio a fio ou seco, porque o encolhimento muda tudo quando seca.
Anamnese: a conversa que evita processo
Antes de qualquer serviço com química, pergunte e anote:
- Qual foi a última química feita, qual produto e há quanto tempo. Progressiva, relaxamento, alisamento, tintura, descoloração, permanente.
- Se o cabelo já quebrou, derreteu ou "esticou e não voltou" alguma vez.
- Alergia a tintura, a produto de salão, a látex.
- Problema no couro cabeludo: feridas, coceira, descamação intensa, psoríase.
- Gravidez, amamentação, quimioterapia, uso de medicamento contínuo.
- Uso de produto caseiro — henna de cabelo, "progressiva de farmácia", receita caseira com produto de limpeza. Isso muda tudo.
Ficha escrita, preenchida e assinada. Não é burocracia: é o documento que existe quando alguém diz que o cabelo caiu por sua causa.
Higiene no salão
- Tesoura, navalhete, pente e alicate de cutícula entram em contato com pele e podem encostar em sangue — exigem limpeza, secagem e esterilização, não apenas álcool.
- Lâmina de navalhete e de barbear é de uso único, com descarte em caixa de perfurocortante.
- Capa, toalha e faixa trocadas a cada cliente. Toalha de tecido vai para a lavagem, não se reaproveita.
- Máquina de corte: lâmina limpa, escovada e desinfetada entre clientes, com produto próprio.
- Luva obrigatória em toda coloração e química, e sempre que houver ferida nas mãos.
- Ventilação — trabalhar horas com amônia, oxidante e formulação de alisamento sem circulação de ar adoece.
- Vacina contra hepatite B, três doses, gratuita no SUS.
- Couro cabeludo com ferida, infecção ou pediculose: não se trabalha ali. Encaminhe.
Atividade prática
Monte a sua ficha de anamnese em uma página, com todos os pontos da caixa acima, um campo para a fórmula usada (produto, tom, volume do oxidante, tempo de pausa) e a linha de assinatura. Imprima e use desde o primeiro atendimento — inclusive nos "só uma escovinha", porque é onde as informações aparecem.
Módulo 2 de 5
Lavagem, tratamento e o que cada produto realmente faz
A lavagem é onde a cliente decide se volta, e é o serviço que mais se faz mal por parecer simples. É também a base de tudo: cabelo mal lavado não recebe química direito e não fica bem penteado.
A lavagem, passo a passo
- Desembarace a seco, do comprimento para a raiz, antes de molhar. Cabelo molhado é mais frágil.
- Molhe bem, com água morna — nunca quente. Água quente resseca, irrita o couro e, em cabelo colorido, acelera a perda de cor.
- Shampoo na palma da mão, emulsionado, aplicado no couro cabeludo — não no comprimento. A espuma que escorre limpa o resto.
- Massageie com as polpas dos dedos, em movimentos circulares. Nunca com a unha. Essa é a diferença entre uma lavagem boa e uma lavagem que a cliente lembra.
- Enxágue completamente. Resíduo de shampoo deixa o cabelo opaco e coça.
- Segunda lavagem se o cabelo estiver muito sujo ou com muito produto. A primeira remove a sujeira; a segunda limpa de fato.
- Condicionador ou máscara do meio para as pontas, evitando a raiz. Tempo de pausa conforme o produto.
- Enxágue, finalizando com água mais fria, que ajuda a fechar a cutícula.
- Retire o excesso com a toalha pressionando, sem esfregar. Esfregar embaraça e quebra.
Conforto na lavagem
Pescoço apoiado na cuba, toalha dobrada sob a nuca, água testada no seu próprio punho antes de encostar na cliente, orelha protegida do jato, e aviso antes de cada mudança ("vou enxaguar agora"). Pergunte sobre a temperatura uma vez no começo.
Não converse por cima do barulho da água nem force a cabeça da cliente. Dor de pescoço na cuba é a reclamação silenciosa mais comum do salão.
O que os produtos fazem, sem propaganda
| Produto | O que faz de fato |
| Shampoo | Limpa, removendo oleosidade e resíduo. Shampoo antirresíduo limpa profundamente e abre a cutícula — usa-se antes de química, não no dia a dia. |
| Condicionador | Alinha a cutícula, reduz atrito e desembaraça. Efeito de superfície. |
| Máscara de hidratação | Repõe água e agentes que retêm água. Para cabelo ressecado, opaco, áspero. |
| Nutrição | Repõe lipídios (óleos e manteigas). Para cabelo sem brilho, sem maleabilidade, quebradiço na ponta. |
| Reconstrução | Repõe massa — proteínas e aminoácidos. Para cabelo elástico, que estica e não volta, pós-química ou muito danificado. |
| Leave-in e finalizador | Protege, controla frizz e facilita o penteado. Fica no cabelo. |
| Protetor térmico | Reduz o dano do secador, da chapinha e do babyliss. Não é opcional em calor. |
| Ampola / tônico | Concentrados de ação pontual. Não substituem o tratamento de base. |
O equilíbrio dos três
Hidratação, nutrição e reconstrução resolvem problemas diferentes, e excesso de qualquer um causa problema. Reconstrução demais deixa o cabelo duro, quebradiço e sem elasticidade — o chamado "excesso de proteína", que é comum e que muita gente combate fazendo ainda mais reconstrução, piorando.
Como avaliar na prática: cabelo que estica muito e não volta, esponjoso quando molhado, pede reconstrução. Cabelo áspero e opaco pede hidratação. Cabelo sem brilho e sem movimento pede nutrição. Cabelo rígido, que quebra seco sem esticar, está com reconstrução em excesso: só hidratação e nutrição por algumas semanas.
Queda de cabelo e couro cabeludo
Você vai ouvir sobre queda toda semana. O que é seu e o que não é:
- É normal perder fios por dia, e a quantidade aumenta em períodos de estresse, pós-parto, pós-covid, dieta restritiva ou doença. Acalmar e orientar é possível.
- Não é seu diagnosticar nem tratar: queda com falha visível, couro dolorido, vermelhidão persistente, descamação intensa, feridas ou queda em tufos é encaminhamento ao dermatologista.
- Caspa (dermatite seborreica) é condição de pele e pode precisar de tratamento médico. Shampoo de salão ajuda, não cura.
- Nunca prometa crescimento, nem venda tratamento com promessa de reverter calvície. Além de não funcionar, é propaganda enganosa.
- Pediculose (piolho): não se atende, com discrição e sem constrangimento, e o material usado vai para higienização imediata.
Atividade prática
Faça o teste de elasticidade em três cabelos diferentes: pegue um fio molhado, estique devagar e observe. Volta ao tamanho original? Estica muito e fica esticado? Arrebenta logo? Anote o resultado de cada um e escreva qual tratamento você indicaria. Esse teste leva dez segundos e é o que mais informa antes de uma química.
Módulo 3 de 5
Corte e escova
Corte é geometria: linhas, ângulos e divisões. Quem entende a lógica das divisões corta qualquer coisa; quem decorou um corte só sabe fazer aquele.
Antes da tesoura
- Converse e confirme. "Quantos dedos você quer tirar?" vale mais que "quero tirar as pontas". Peça para ela mostrar com a mão no próprio cabelo.
- Olhe o cabelo seco e solto, em repouso, antes de molhar: densidade, curvatura, falhas, redemoinho, implantação na nuca, altura do topo.
- Avalie o rosto e o pescoço e diga o que você recomenda — e por quê.
- Alinhe expectativa. Se ela traz foto, aponte o que dá e o que não dá naquele tipo de fio. Mostre a diferença de encolhimento em cabelo cacheado.
- Divida o cabelo em seções com clipes: nuca, laterais, coroa, topo. Corte é dividido, sempre.
Os conceitos que sustentam qualquer corte
| Conceito | O que é |
| Linha-guia | A primeira mecha cortada, que define o comprimento. Todas as outras seguem ela. |
| Elevação (ângulo) | O quanto se levanta a mecha antes de cortar. 0° dá peso e linha reta; 90° dá camadas; acima disso, camadas longas e mais leveza. |
| Divisão | O desenho das seções: horizontal, vertical, diagonal para frente (alonga o rosto) ou diagonal para trás (dá movimento). |
| Tensão | A força com que se segura a mecha. Tensão precisa ser igual em todas as mechas, ou o corte sai torto — e em cabelo cacheado, tensão demais engana muito. |
| Desbaste | Reduzir volume sem reduzir comprimento. Usado com parcimônia; em excesso, cria frizz e pontas arrepiadas. |
Cortes de base
- Corte reto (0°): todo o cabelo cai no mesmo comprimento. Máximo de peso na ponta. Base do chanel e do long bob.
- Corte em camadas (90°): leveza e movimento distribuídos. Base do repicado.
- Corte gradual: comprimento aumenta progressivamente, criando volume no alto — base do bob e dos cortes curtos femininos e masculinos.
- Franja: decida a densidade puxando uma seção triangular a partir do topo. Franja é o que mais transforma e o que mais gera arrependimento — corte mais comprido do que o combinado e ajuste, porque encurtar dá; alongar não.
Cabelo cacheado e crespo: outra lógica
Cortar cacheado molhado e esticado é o erro clássico: o cabelo encolhe ao secar e o comprimento final surpreende os dois lados. As alternativas:
- Corte seco, com o cacho definido e na posição natural, vendo o resultado enquanto corta.
- Corte fio a fio ou cacho a cacho, respeitando o desenho de cada mecha.
- Se cortar molhado, calcule o encolhimento e deixe sobra — conversando antes sobre isso.
Em crespo, atenção também à forma geral: o volume cresce para os lados, não para baixo, e a silhueta do corte precisa ser pensada em três dimensões.
Escova
- Retire o excesso de água e aplique protetor térmico e finalizador. Escova em cabelo encharcado demora e danifica.
- Pré-seque até cerca de 80% com o secador e os dedos, ou com difusor.
- Divida em seções e trabalhe da nuca para cima, mecha por mecha.
- Bico direcionador no secador, apontado de cima para baixo, no sentido da cutícula. É o que dá brilho; secar contra o sentido cria frizz.
- Mantenha distância de alguns centímetros e o secador em movimento. Ar parado em um ponto queima.
- Tensão firme e constante na escova, acompanhando o calor da raiz à ponta.
- Esfrie a mecha antes de soltar — enrolada na escova ou no ar frio. É o que fixa a forma.
- Finalize com leave-in leve ou spray, sem pesar.
Chapinha e babyliss
- Só em cabelo completamente seco. Chapinha em cabelo úmido ferve a água dentro do fio e arrebenta a estrutura.
- Protetor térmico sempre.
- Temperatura adequada ao fio: menos calor em cabelo fino, descolorido ou danificado. Temperatura máxima não é sinal de eficiência.
- Uma ou duas passadas por mecha, em movimento contínuo. Repetir dez vezes no mesmo ponto é o que queima.
- Mechas finas funcionam melhor e exigem menos calor.
Atividade prática
Em uma cabeça de treino ou em voluntárias, faça três vezes o mesmo corte reto: divida, estabeleça a linha-guia e mantenha a mesma tensão em todas as mechas. Depois solte e confira a linha com o cabelo seco. Onde ficou desigual, foi tensão diferente ou divisão torta — identifique qual das duas.
Módulo 4 de 5
Coloração: escala de tons, oxidante e descoloração
Coloração é o serviço mais lucrativo do salão e o que mais gera reclamação. A diferença entre os dois está quase inteira em duas coisas: entender a escala de tons e nunca pular o teste.
A escala de tons
A coloração profissional usa uma numeração universal. O primeiro número é a altura de tom, do 1 ao 10 (alguns fabricantes vão até 12):
| Nº | Tom | Nº | Tom |
| 1 | Preto | 6 | Louro escuro |
| 2 | Castanho muito escuro | 7 | Louro médio |
| 3 | Castanho escuro | 8 | Louro claro |
| 4 | Castanho médio | 9 | Louro muito claro |
| 5 | Castanho claro | 10 | Louro claríssimo |
Depois do ponto vem a reflexão (o fundo de cor): 0 natural, 1 cinza/acinzentado, 2 irisado/violeta, 3 dourado, 4 acobreado, 5 mogno/avermelhado, 6 vermelho, 7 marrom. A numeração exata varia por marca — leia sempre a cartela do fabricante que você está usando.
O fundo de clareamento: o conceito que evita o cabelo laranja
Quando o cabelo clareia, o pigmento não sai todo de uma vez: ele vai revelando cores subjacentes, sempre na mesma ordem. Do escuro para o claro: vermelho → vermelho-alaranjado → laranja → laranja-amarelado → amarelo → amarelo claro.
É por isso que um castanho escuro que recebe uma cor loura vira laranja: a cor foi depositada sobre um fundo alaranjado. E é por isso que se neutraliza com a cor oposta no círculo cromático — azul neutraliza laranja, violeta neutraliza amarelo, verde neutraliza vermelho.
Regra de ouro: coloração não clareia coloração. Cabelo já tingido de escuro só clareia com descoloração ou removedor, nunca aplicando uma cor mais clara por cima.
Oxidante (água oxigenada)
| Volume | Uso típico |
| 10 vol. | Tonalizar, escurecer, cobrir branco sem clarear. |
| 20 vol. | Cobertura de branco e clareamento de 1 a 2 tons. O mais usado. |
| 30 vol. | Clareamento de 2 a 3 tons. |
| 40 vol. | Clareamento máximo. Nunca no couro cabeludo, nunca em cabelo frágil. |
Quanto maior o volume, mais a cutícula abre, mais clareia e mais danifica. Volume alto não substitui técnica — e em cabelo já processado, volume alto é o caminho mais curto para a quebra.
Os testes que não se pulam
Teste de contato (alergia) e teste de mecha
Teste de contato (de toque): a mistura é aplicada em pequena quantidade atrás da orelha ou na dobra do cotovelo, 48 horas antes, sem lavar nem cobrir. Qualquer coceira, ardência, vermelhidão, inchaço ou bolha significa não aplicar. Isso vale mesmo para cliente antiga: a alergia a p-fenilenodiamina, presente em muitas colorações, pode surgir a qualquer momento e, uma vez instalada, é permanente. Reação grave no couro cabeludo e no rosto existe e já matou gente.
Teste de mecha: aplicar o procedimento em uma mecha escondida da nuca e observar o resultado e a resistência do fio antes de fazer a cabeça toda. É obrigatório quando: o cabelo tem química anterior, tem henna, foi tingido em casa, está muito danificado, ou quando você tem qualquer dúvida sobre como vai reagir.
Henna de cabelo é o alerta máximo. Henna com aditivos metálicos reage de forma violenta com o oxidante — o cabelo pode aquecer, soltar fumaça, derreter e arrebentar na hora. Nunca aplique química sobre henna sem teste de mecha; na dúvida, não aplique.
Aplicação
- Cabelo seco e sem lavar (a oleosidade natural protege o couro), a menos que a marca oriente diferente.
- Divida em quatro e aplique em mechas finas, com pincel, de forma uniforme.
- Retoque de raiz: aplique só na raiz primeiro. Depois, se precisar renovar o comprimento, use tonalizante ou uma mistura mais suave nos minutos finais. Repassar a fórmula toda no comprimento a cada retoque acumula dano e escurece.
- Cronometre o tempo de pausa e conte a partir do fim da aplicação. Mais tempo não dá mais cor.
- Proteja a testa, as orelhas e a nuca, e limpe manchas na pele imediatamente.
- Emulsione antes de enxaguar e finalize com produto de pH ácido para fechar a cutícula.
- Anote a fórmula na ficha: marca, tom, volume do oxidante, proporção e tempo. É o que permite repetir o resultado — e é o que salva quando dá problema.
Descoloração e mechas
- Descoloração retira pigmento e é o procedimento mais agressivo do salão. Fio descolorido nunca volta ao estado original.
- Avalie a resistência antes: teste de elasticidade e teste de mecha. Cabelo que estica e não volta não aguenta descoloração.
- Acompanhe visualmente o tempo todo. Descoloração não tem tempo fixo: tem ponto, e o ponto se vê.
- Não tente clarear muitos tons de uma vez. Loiro a partir de castanho escuro é um projeto de várias sessões, com intervalo — e isso se combina e se cobra antes.
- Protetores de fio adicionados à mistura reduzem o dano, mas não o eliminam.
- Matização depois, para neutralizar o fundo amarelo ou alaranjado.
- Se o cabelo começar a ficar gelatinoso, emborrachado ou a arrebentar durante o processo: pare imediatamente, enxágue e reconstrua. Insistir é o que produz aquele vídeo de cabelo caindo na mão.
Atividade prática
Pegue a cartela de uma marca profissional e monte três "receitas" escritas para situações reais: (1) cobrir 50% de brancos mantendo o castanho médio natural; (2) clarear dois tons um louro escuro; (3) matizar um cabelo descolorido que ficou amarelado. Escreva tom, volume do oxidante, proporção e tempo de cada uma, e diga qual teste você faria antes.
Módulo 5 de 5
Alisamento, o que a Anvisa proíbe, e o lado do negócio
Este módulo trata do serviço que mais causa acidente grave em salão e do que sustenta a sua carreira depois que a técnica já está boa. Comece pela parte que protege a sua ficha.
O que a Anvisa permite em alisantes e ondulantes
A Anvisa autoriza, em produtos alisantes e ondulantes para cabelo, apenas estas substâncias ativas:
- Ácido tioglicólico, seus sais e ésteres
- Hidróxido de sódio ou de potássio
- Hidróxido de lítio
- Hidróxido de cálcio combinado com sal de guanidina
- Sulfitos e bissulfitos inorgânicos
- Pirogalol
- Ácido tiolático
Formol: proibido como alisante, sem exceção
Formaldeído (formol) e glutaraldeído são proibidos como agentes alisantes. O formol só é permitido como conservante, em concentração baixíssima — até 0,2% em cosméticos —, e como endurecedor de unhas em concentração até 5%. Nessa quantidade ele não alisa nada: qualquer produto que alise por causa do formol está fora da lei.
A Anvisa classifica o formol como substância com potencial cancerígeno. Os danos documentados incluem queimadura química do couro cabeludo, irritação e lesão ocular, irritação respiratória, alergias e quebra do cabelo. Quem mais se expõe não é a cliente: é você, que respira aquilo várias vezes por dia, todos os dias.
Nunca adicione formol a nenhum produto. "Dar uma reforçada" é crime, é acidente de trabalho esperando acontecer e é o fim de uma carreira.
O ácido glioxílico não é autorizado para alisamento capilar no Brasil. Alguns produtos antigos permanecem registrados, mas a substância está em reavaliação de segurança e a Anvisa alerta contra o uso, observando que causa dano severo quando aquecida.
Como verificar um produto antes de comprar
- Rótulo completo: fabricante ou importador, CNPJ, lote, validade, lista de ingredientes e modo de uso.
- Número de registro ou notificação na Anvisa, no formato 25351.XXXXXX/20XX-XX.
- Consulte esse número no portal da Anvisa. É gratuito, leva um minuto e é a diferença entre estar dentro e fora da lei.
- Desconfie de: produto sem rótulo, vendido em galão sem identificação, "fórmula fechada", "importado sem registro porque é melhor", e de qualquer coisa comprada de representante sem nota.
- Guarde a nota fiscal e o rótulo dos produtos que você usa.
Alisamento e relaxamento com segurança
- Anamnese e teste de mecha, sempre. Química sobre química é onde o cabelo derrete.
- Nunca faça alisamento e descoloração no mesmo dia, nem em cabelo recém-descolorido. É a combinação que mais arrebenta cabelo.
- Couro cabeludo íntegro. Nada de aplicar sobre feridas, coceira ou couro irritado. Não lave o cabelo antes, para preservar a oleosidade protetora.
- Luva, ventilação e máscara. Abra janela e ligue exaustor — o ambiente do salão é o seu local de trabalho por oito horas.
- Cronometre e acompanhe o tempo todo.
- Enxágue completo e neutralização conforme a marca.
- Se a cliente relatar ardência, coceira ou queimação durante o processo: enxágue imediatamente. Não peça para "aguentar mais um pouquinho".
- Gestante e lactante: a orientação prudente é evitar química, e a decisão passa pelo médico dela — não por você.
O lado do negócio
- Preço por serviço, com a coloração cobrada considerando o comprimento e a quantidade de produto. Cobrar o mesmo por um cabelo curto e um cabelo na cintura é perder dinheiro em todo atendimento longo.
- Agenda com tempo real: química leva o tempo que leva. Encaixar demais atrasa o dia inteiro e é a maior fonte de reclamação em salão.
- Sinal para serviços longos (loiro, alisamento, transformação) e política de cancelamento escrita. Uma cliente que falta num horário de quatro horas leva o dia junto.
- Ficha técnica de cada cliente, com a fórmula usada e a data. Vale ouro no retorno.
- Portfólio: antes e depois, luz natural, mesma posição, sem filtro, com autorização.
- Venda de produto para casa é margem importante — desde que você indique o que a cliente precisa, e não o que está parado na prateleira.
- Fidelização: lembrete de retorno na época certa (retoque de raiz tem prazo previsível) traz mais gente de volta que qualquer promoção.
A sua saúde, que é o seu instrumento de trabalho
- Mãos: luva em toda química. Dermatite de contato é a doença ocupacional mais comum da profissão e pode encerrar uma carreira.
- Vias respiratórias: ventilação e exaustão. Nada de trabalhar com química em sala fechada.
- Coluna e pernas: a profissão é de pé o dia inteiro. Sapato fechado, com bom amortecimento e sem salto; tapete antifadiga; cadeira hidráulica ajustada à sua altura, não à da cliente; sentar sempre que possível; alongar entre atendimentos.
- Ombros e punhos: tesoura e secador pesam. Alterne serviços e não faça cinco escovas longas seguidas.
- Ouvido: secador o dia inteiro é ruído contínuo.
- Vacina de hepatite B em dia, e descarte correto de lâminas em caixa de perfurocortante.
Atividade prática
Pegue três produtos de alisamento à venda na sua cidade ou em site. Para cada um, anote: traz número de registro ou notificação da Anvisa? Qual ativo aparece na lista de ingredientes — está entre os permitidos? Consulte os números no portal da Anvisa e escreva o resultado. Se algum não for localizado, esse produto não entra no seu salão.
Para refletir
Existe uma pressão real: a cliente quer o liso perfeito, quer hoje, e alguém do outro lado da rua faz. Dizer "esse cabelo não aguenta agora, vamos em duas etapas" custa um atendimento. Dizer sim e ver o cabelo arrebentar na mão custa a cliente, a indicação dela, a sua reputação e, às vezes, um processo. Essa escolha vai aparecer muitas vezes na sua carreira, e a resposta certa é sempre a mesma.
Para saber mais
- Lei nº 12.592/2012 — reconhece a profissão e obriga a esterilização de materiais e utensílios; Lei nº 13.352/2016, sobre o salão-parceiro.
- Anvisa — página sobre produtos alisantes e ondulantes para cabelo, com a lista de ativos permitidos, e a consulta de produtos regularizados.
- Anvisa — informes de cosmetovigilância sobre formol e ácido glioxílico em alisantes.
- A cartilha de biossegurança para salões da vigilância sanitária do seu município, que é quem fiscaliza.
- Portal do Empreendedor, para o MEI.
- Cursos "Maquiagem Profissional", "Design de Sobrancelhas", "Manicure e Pedicure", "Empreendedorismo e MEI", "Atendimento ao Cliente", "Vendas pelo WhatsApp e Instagram" e "Noções de NR-06 e NR-17: EPI e Ergonomia", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.
Conclua os 5 módulos para liberar a avaliação.