PAEFI, violações de direitos, plano de acompanhamento e trabalho em rede: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
O SUAS e a proteção social especial
Para trabalhar bem no CREAS é preciso saber onde ele fica dentro do sistema: o que vem antes, o que vem depois e o que é de outro serviço.
A assistência social como direito
A Constituição de 1988 colocou a assistência social no tripé da seguridade social, ao lado da saúde e da previdência. A Lei Orgânica da Assistência Social (Lei nº 8.742/1993) e a Política Nacional de Assistência Social (2004) organizaram esse direito no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com serviços públicos, gratuitos e organizados por território.
Os níveis de proteção
Nível
Quando atua
Equipamento
Proteção social básica
Prevenção: vulnerabilidade social, sem violação de direitos instalada.
CRAS
Proteção especial de média complexidade
Direitos já violados, com vínculos familiares preservados.
CREAS e Centro Pop
Proteção especial de alta complexidade
Rompimento de vínculos: é preciso proteção integral fora da família.
Acolhimento institucional e familiar, casa de passagem, república
O que o CREAS oferece
A Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais define os serviços da média complexidade, ofertados ou referenciados ao CREAS:
PAEFI — Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos.
Serviço de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto (Liberdade Assistida e Prestação de Serviços à Comunidade).
Serviço Especializado em Abordagem Social.
Serviço de Proteção Social Especial para Pessoas com Deficiência, Idosas e suas Famílias.
Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, no Centro Pop.
CRAS e CREAS: a diferença que importa
CRAS
CREAS
Foco
Prevenir, fortalecer vínculos, acesso a benefícios.
PAEFI, medidas socioeducativas em meio aberto, abordagem social.
Abrangência
Território do bairro.
Municipal ou regional.
Um caso pode transitar entre os dois: família acompanhada no CRAS que sofre uma violação passa a ser atendida no CREAS; encerrado o acompanhamento especializado, volta a ser referenciada ao CRAS. O que não pode é a família ficar no vazio entre os dois.
A equipe
A equipe de referência do CREAS reúne coordenação, profissionais de nível superior — em geral assistente social, psicólogo e, conforme o porte, advogado — e profissionais de nível médio para apoio e abordagem social. O trabalho é interdisciplinar: nenhum caso é de uma profissão só.
Para refletir
Quantas famílias do seu território estariam melhor atendidas na proteção básica e chegam ao CREAS porque a prevenção falhou?
Atividade prática
Liste os serviços oferecidos pelo CREAS da sua cidade e compare com a Tipificação Nacional. Anote o que falta e o que é ofertado de forma referenciada.
Módulo 2 de 5
O PAEFI e o trabalho social com famílias
O PAEFI é o serviço-espinha do CREAS: apoio, orientação e acompanhamento a famílias e indivíduos que tiveram direitos violados.
Objetivos do serviço
Contribuir para o fim da violação de direitos e para a proteção imediata.
Fortalecer a função protetiva da família e prevenir o rompimento de vínculos.
Restaurar e preservar a convivência familiar e comunitária.
Garantir acesso a serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas.
Prevenir a reincidência das violações.
Quem é atendido
Famílias e indivíduos que vivem, entre outras situações: violência física, psicológica ou negligência; violência sexual; afastamento do convívio familiar por medida protetiva; adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto; situação de rua; trabalho infantil; discriminação por orientação sexual, identidade de gênero, raça ou etnia; tráfico de pessoas; e descumprimento de condicionalidades que revele vulnerabilidade.
Como as famílias chegam
Porta de entrada
Cuidado necessário
Demanda espontânea
Acolher sem exigir encaminhamento ou documento para ser ouvido.
Encaminhamento do Conselho Tutelar
Conferir a medida aplicada e devolver retorno ao Conselho.
Determinação judicial ou do Ministério Público
Cumprir o que é possível tecnicamente e informar limites com clareza.
Busca ativa
Abordagem social, visita, articulação com escola, saúde e CRAS.
Outros serviços da rede
Alinhar quem faz o quê para a família não repetir a história em cada porta.
Matricialidade sociofamiliar
O SUAS trabalha com a família como unidade de atenção, sem perder de vista o indivíduo. Isso significa: olhar para o arranjo familiar real — e não para um modelo ideal —, reconhecer a família como sujeito, e não como culpada, e identificar os apoios que ela já tem. Famílias monoparentais, chefiadas por mulheres, por avós, recompostas ou ampliadas são a regra, não a exceção.
Postura profissional
Acolher antes de avaliar: quem chega ao CREAS já contou a história várias vezes.
Não moralizar a pobreza nem confundir falta de condição material com negligência.
Reconhecer a capacidade da família de participar das decisões sobre a própria vida.
Informar com clareza o que o serviço pode e o que não pode fazer.
Combinar tempo, frequência e objetivos do acompanhamento desde o começo.
Trabalhar a partir de potências, e não só de faltas.
Atividade prática
Escreva o roteiro da primeira acolhida no PAEFI: o que você explica, o que pergunta, o que registra e o que combina ao final. Inclua a frase que você usaria para explicar o sigilo e seus limites.
Módulo 3 de 5
Violências e violações de direitos
Reconhecer a violação com precisão é o que permite proteger sem exagerar e agir sem se omitir.
Abuso, exploração, aliciamento, exposição a conteúdo sexual.
Negligência e abandono
Omissão de cuidados essenciais por quem tem o dever de cuidar.
Patrimonial e financeira
Apropriação de benefício ou bens, comum contra pessoas idosas.
Institucional
Maus-tratos, discriminação ou revitimização praticados por serviços.
Marcos legais que sustentam a atuação
ECA (Lei nº 8.069/1990) e Lei nº 13.010/2014: direito de ser educado sem castigo físico ou tratamento cruel ou degradante.
Lei nº 13.431/2017: escuta especializada e depoimento especial de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência.
Lei nº 14.344/2022: medidas protetivas de urgência em violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes.
Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006): violência doméstica e familiar contra a mulher.
Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) e Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/2015).
Lei do SINASE (nº 12.594/2012), para as medidas em meio aberto executadas no CREAS.
Escuta que protege
A escuta especializada é a entrevista realizada pela rede de proteção, limitada ao estritamente necessário para cumprir a finalidade de proteção. Não é investigação e não é coleta de prova. Na prática:
Ouça o necessário, no ritmo da pessoa, em ambiente reservado.
Não peça detalhes do ato nem repita perguntas já respondidas a outro serviço.
Registre com as palavras dela, entre aspas quando for relevante.
Não confronte vítima e suposto autor, nem faça acareação.
Explique o que acontecerá depois — a incerteza aumenta o sofrimento.
Notificação e comunicação
Suspeita ou confirmação de maus-tratos, castigo físico ou tratamento cruel contra criança ou adolescente é comunicada obrigatoriamente ao Conselho Tutelar.
Crimes são comunicados à autoridade policial e ao Ministério Público.
Violência contra pessoa idosa também tem notificação obrigatória e comunicação aos órgãos de defesa.
Comunicar não é romper sigilo indevidamente: é obrigação legal, e deve ser explicada à família.
Avaliação de risco
Há risco de morte ou de lesão grave agora?
O suposto autor tem acesso livre à vítima?
Há histórico de repetição e de agravamento?
Existem armas, ameaças, perseguição ou uso abusivo de substâncias envolvido?
Há alguém na rede pessoal que pode proteger?
Que serviços precisam ser acionados hoje, e não na semana que vem?
Risco alto exige providência imediata e articulada — e registro do que foi feito e do que foi pedido a cada órgão.
Atividade prática
Construa um roteiro de avaliação de risco para o seu serviço, com perguntas objetivas e três níveis de resposta (imediata, prioritária, acompanhamento). Teste em dois casos fictícios.
Módulo 4 de 5
O acompanhamento familiar na prática
Acompanhar é diferente de atender uma vez. É um processo com começo, meio e fim, com objetivos pactuados e registro consistente.
O percurso
Etapa
O que acontece
Acolhida
Escuta inicial, identificação da demanda, avaliação de risco, orientação sobre direitos.
Objetivos pactuados com a família, ações, prazos e responsáveis — do serviço e da família.
Atendimentos
Individuais, familiares e em grupo, com frequência definida no plano.
Visita domiciliar
Combinada sempre que possível; é instrumento de vínculo e leitura de contexto, nunca de fiscalização.
Articulação em rede
Encaminhamentos com contato prévio, referência e contrarreferência.
Avaliação e desligamento
Revisão periódica dos objetivos e encerramento planejado, com referência ao CRAS quando couber.
Um bom plano de acompanhamento
É construído com a família, em linguagem que ela entende.
Tem objetivos concretos: "garantir matrícula e frequência escolar do João no turno da tarde até 30 de abril".
Distribui responsabilidades entre a família, o serviço e a rede.
Tem prazos e datas de revisão.
Considera o que a família já faz bem.
Não transforma a família em executora do que é obrigação do Estado.
Registro e prontuário
Registre cada atendimento: data, participantes, conteúdo, encaminhamentos e próximos passos.
Escreva fatos e falas, não julgamentos morais.
Use o prontuário SUAS ou o instrumento adotado pelo município, e alimente os sistemas de informação.
Relatórios ao Judiciário, ao Ministério Público ou ao Conselho Tutelar respondem ao que foi perguntado, no limite técnico — o serviço não emite juízo sobre culpa nem produz prova.
Prontuário é documento sigiloso: acesso restrito à equipe, nunca a terceiros sem base legal.
Ética no cotidiano
Sigilo profissional, inclusive nos corredores e nos grupos de mensagem.
Autonomia da família: informar opções em vez de decidir por ela, respeitando os limites legais quando há proteção de criança envolvida.
Não discriminação por raça, religião, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência ou origem.
Transparência sobre o que será comunicado a outros órgãos e por quê.
Limite profissional: não emprestar dinheiro, não levar caso para casa, não criar dependência pessoal.
Encaminhamento que funciona
Encaminhamento não é papel na mão da família. Tem nome do profissional de destino, contato prévio, data, informação suficiente e — o mais esquecido — retorno. Sem contrarreferência, o serviço não sabe se a pessoa chegou, e a família costuma desistir no meio do caminho.
Atividade prática
Elabore um plano de acompanhamento completo para um caso fictício, com cinco objetivos pactuados, responsáveis, prazos e data de revisão. Depois escreva o registro de dois atendimentos e um relatório de resposta ao Conselho Tutelar.
Módulo 5 de 5
Trabalho em rede, desafios e cuidado com a equipe
O CREAS depende da rede mais do que qualquer outro equipamento: quase nada do que a família precisa está dentro dele.
Com quem se articula
Parceiro
Para quê
CRAS
Proteção básica, benefícios, convivência, referência após o desligamento.
Conselho Tutelar
Aplicação de medidas de proteção e comunicação de violações.
Saúde
UBS, CAPS, CAPS AD, CAPSi, urgência, saúde da mulher e da pessoa idosa.
Educação
Matrícula, frequência, busca ativa escolar, proteção no ambiente escolar.
Justiça e defesa
Ministério Público, Defensoria, Vara da Infância, delegacias especializadas.
Trabalho e renda
Qualificação, aprendizagem, intermediação de vagas, documentação.
Acolhimento
Alta complexidade, quando o afastamento do convívio é determinado judicialmente.
Reunião de rede com fluxo escrito, responsáveis nomeados e prazos evita o pior vício do sistema: cada serviço achar que o outro está cuidando.
Situações difíceis e como conduzir
Família que não adere: investigue o motivo — horário, transporte, medo, vergonha, experiência ruim anterior. Adesão não se exige, se constrói.
Determinação judicial impossível de cumprir: responda por escrito explicando o limite técnico e o que é possível fazer.
Falta de vaga na rede: registre, comunique a gestão e o órgão de controle; a falta repetida é dado de política pública.
Risco à equipe: atendimento em dupla, visita com planejamento, combinação prévia de local e horário, comunicação com a coordenação.
Pressão para entregar informação sigilosa: só com base legal e no limite do necessário.
Caso que mobiliza demais: leve para discussão de equipe e supervisão; ninguém deve carregar sozinho.
Desligamento
O acompanhamento tem fim: quando os objetivos são alcançados, quando a violação cessou e a família tem autonomia, ou quando o caso passa a ser de outro serviço. Um bom desligamento é conversado, planejado, registrado e acompanhado de referência ao CRAS e à rede. Encerrar por falta de comparecimento, sem busca ativa, não é desligamento: é abandono.
Cuidar de quem cuida
Trabalhar com violência todos os dias tem preço. Sinais de esgotamento — insônia, irritação, distanciamento afetivo, sensação de que nada muda — merecem atenção e não silêncio. Supervisão técnica, reunião de equipe, divisão equilibrada de casos, formação continuada e o direito de falar do que pesa são o que mantém o serviço de pé. Equipe adoecida atende mal, e em serviço de proteção isso se paga caro.
Para refletir
Qual foi o último caso que você levou para casa? O que faltou na estrutura do serviço para que ele não fosse seu sozinho?
Atividade prática
Desenhe o fluxo de atendimento do seu município para um caso de violência contra criança: quem recebe, quem escuta, quem comunica, quem acompanha e em quantos dias. Marque os pontos onde o caso costuma se perder e proponha uma correção.
Para saber mais
LOAS (Lei nº 8.742/1993), PNAS 2004, NOB-SUAS e Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais.
Orientações técnicas do CREAS e do PAEFI publicadas pelo governo federal.
ECA, Lei nº 13.431/2017, Lei nº 14.344/2022, Lei Maria da Penha e Estatuto da Pessoa Idosa.
Cursos "Conselho Tutelar e Sistema de Garantia de Direitos", "Medidas Socioeducativas em Meio Aberto" e "Mediação de Conflitos e Justiça Restaurativa", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.