Aedes aegypti, criadouros, visita, LIRAa, zoonoses e biossegurança: 5 módulos de leitura com atividades práticas, mais a avaliação final
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Módulo 1 de 5
Vigilância em saúde e o papel do agente
O Agente de Combate às Endemias trabalha para que a doença não aconteça. É um trabalho que, quando dá certo, ninguém vê — e é por isso que ele precisa ser bem feito e bem registrado.
As vigilâncias do SUS
Área
Do que cuida
Vigilância epidemiológica
Notificação de casos, investigação, surtos, indicadores de doenças.
Vigilância ambiental
Vetores, zoonoses, água para consumo, qualidade do ar e do solo, desastres.
Vigilância sanitária
Produtos, serviços e ambientes: alimentos, medicamentos, estabelecimentos.
Saúde do trabalhador
Riscos e agravos relacionados ao trabalho.
O ACE atua principalmente na vigilância ambiental e no controle de vetores, sempre articulado com a Atenção Primária.
A profissão tem lei
A Lei nº 11.350/2006, alterada pela Lei nº 13.595/2018, regulamenta a função. O ingresso é por processo seletivo público, exige ensino médio completo (com regra de transição para quem já exercia a função) e curso de formação inicial de no mínimo 40 horas, com aperfeiçoamento a cada dois anos. A jornada associada ao piso é de 40 horas semanais.
A Emenda Constitucional nº 120/2022 assegurou vencimento não inferior a dois salários mínimos, com recursos repassados pela União, além de adicional de insalubridade e aposentadoria especial, em razão dos riscos da função.
O que o ACE faz
Ações educativas e de mobilização da comunidade sobre prevenção de doenças.
Cadastramento e visita a imóveis para planejamento das ações.
Pesquisa entomológica e malacológica: procurar larvas, mosquitos, triatomíneos e caramujos.
Identificação de casos suspeitos e encaminhamento ao serviço de saúde.
Divulgação de informação sobre sinais, sintomas e medidas de prevenção.
Execução de medidas de controle, inclusive químico e biológico, conforme a norma técnica.
Identificação de fatores ambientais de risco e mobilização para manejo ambiental.
Registro das informações nos sistemas do SUS.
Com assistência de profissional de nível superior, o agente também pode atuar em vacinação animal contra zoonoses, coleta e transporte de material biológico de animais e ações de investigação diagnóstica.
O que o ACE não faz
Não diagnostica, não medica e não trata pessoas.
Não entra em imóvel sem autorização do morador ou responsável.
Não aplica produto fora da norma técnica, na dose "que costuma funcionar" nem em local não indicado.
Não recolhe animais por conta própria nem realiza procedimento veterinário.
Não divulga dados de casos e de moradores.
ACE e ACS: trabalho integrado
Os dois cobrem o mesmo território. Quando trocam informação, o resultado muda: o ACS avisa de um caso de febre na rua, o ACE inspeciona a área; o ACE encontra um quintal com criadouros numa casa com gestante e idoso, o ACS acompanha a família. Reunião conjunta, mapa compartilhado e linguagem combinada evitam informação contraditória na comunidade.
Atividade prática
Liste as doenças e agravos sob vigilância no seu município e identifique quais dependem diretamente do seu trabalho. Depois, escreva três informações que você levaria para a equipe de Saúde da Família nesta semana.
Módulo 2 de 5
O Aedes aegypti e as arboviroses
Conhecer o mosquito é conhecer o inimigo: onde ele põe ovo, quanto tempo leva para virar adulto e por que ele sempre volta ao mesmo quintal.
O ciclo do mosquito
Ovo: posto na parede do recipiente, logo acima da água. Resiste à seca por muitos meses e eclode quando a água sobe.
Larva: vive na água, movimenta-se em forma de S e precisa subir para respirar.
Pupa: fase de transformação, também na água, sem se alimentar.
Adulto: em condições favoráveis, o ciclo do ovo ao mosquito adulto leva por volta de uma semana a dez dias.
Esse detalhe do ovo resistente explica por que só esvaziar o recipiente não basta: é preciso esfregar as paredes para retirar os ovos, tampar bem ou eliminar o recipiente.
Hábitos do Aedes aegypti
Vive perto das pessoas, dentro e ao redor das casas.
Pica principalmente durante o dia, com picos no começo da manhã e no fim da tarde.
Prefere água limpa e parada, mas se adapta a outros criadouros.
Voa distâncias curtas: o criadouro costuma estar no próprio imóvel ou na vizinhança imediata.
A fêmea pica para maturar os ovos e pode picar várias pessoas no mesmo ciclo.
Criadouros mais comuns
Grupo
Exemplos
Armazenamento de água
Caixa d'água sem tampa, tambor, tonel, cisterna, balde, pote.
Móveis e fixos da casa
Vaso de planta e prato, bebedouro de animal, calha entupida, laje, ralo externo.
Lixo e descarte
Pneu, garrafa, lata, tampinha, entulho, sucata, brinquedo no quintal.
Naturais
Bromélia, oco de árvore, casca de coco, bambu cortado.
Pontos estratégicos
Borracharia, ferro-velho, cemitério, depósito de material de construção, floricultura.
As doenças transmitidas
Dengue: febre alta de início súbito, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dor no corpo e nas articulações, manchas na pele, náusea.
Chikungunya: febre e dor articular intensa, que pode persistir por semanas ou meses.
Zika: muitas vezes com sintomas leves; manchas na pele com coceira, febre baixa, olhos vermelhos. Na gestação, pode causar má-formação no bebê, o que exige atenção redobrada.
Febre amarela urbana: o Aedes é o vetor no ciclo urbano; a prevenção principal é a vacina.
Sinais de alarme da dengue
Ao identificar qualquer um destes sinais, oriente a procurar imediatamente o serviço de saúde — eles costumam aparecer quando a febre cede:
Dor abdominal intensa e contínua.
Vômitos persistentes.
Sangramento de mucosas: gengiva, nariz, vômito ou fezes com sangue.
Tontura ou queda de pressão ao levantar.
Sonolência, irritabilidade ou confusão.
Acúmulo de líquidos, falta de ar.
O agente não diagnostica nem indica medicação. Oriente hidratação e procura do serviço, e nunca sugira remédio para dor por conta própria — alguns podem agravar sangramentos. Sobre vacinas, siga o calendário e o público-alvo definidos pelo Ministério da Saúde, que mudam de tempos em tempos.
Atividade prática
Percorra o seu quarteirão e faça uma lista dos dez criadouros mais frequentes, com a solução definitiva para cada um. Depois, escreva como explicaria a um morador por que esvaziar o balde não resolve.
Módulo 3 de 5
A visita e o controle de criadouros
A visita é o trabalho. E o que decide o resultado não é o larvicida: é a conversa com o morador e a eliminação definitiva do criadouro.
Antes de sair
Confira o roteiro do ciclo, o mapa do quarteirão e os imóveis pendentes da visita anterior.
Verifique material: lanterna, pipeta, tubitos, formulário ou dispositivo de registro, larvicida conforme a norma, EPI.
Use crachá e uniforme visíveis: o morador precisa identificar quem bate na porta.
A abordagem
Cumprimente, identifique-se e mostre o crachá.
Explique o objetivo em uma frase simples e peça autorização para entrar.
Faça a inspeção junto com o morador sempre que possível — quem vê o foco no próprio quintal muda de ideia.
Oriente sem culpar: a casa com foco não é uma casa "suja"; é uma casa com um recipiente esquecido.
Combine o que ficará a cargo do morador e registre.
Agradeça. A próxima visita depende de como esta terminou.
Se o morador recusar a entrada, registre a recusa e siga o fluxo do serviço; se o imóvel estiver fechado, anote para retorno. Nunca entre sem autorização — situações excepcionais em emergência de saúde pública seguem procedimento próprio, com autorização e acompanhamento previstos em lei, e não decisão do agente.
A inspeção, passo a passo
Percorra todo o imóvel, inclusive quintal, laje, calha, área de serviço e fundos.
Use a lanterna em recipientes escuros e observe as paredes acima da linha d'água.
Colete larvas com pipeta para os tubitos, identifique o imóvel e encaminhe conforme a rotina do laboratório.
Registre os recipientes encontrados por tipo — essa informação vira indicador.
A ordem correta das medidas
Medida
Quando usar
Eliminação mecânica
Sempre que possível, é a primeira escolha: descartar, furar, virar, esfregar, cobrir, dar destino adequado ao lixo.
Controle mecânico de proteção
Tampar caixa d'água, telar, vedar, trocar água de bebedouro e vaso.
Tratamento focal (larvicida)
Apenas em recipientes que não podem ser eliminados nem protegidos, na dosagem da norma técnica.
Tratamento perifocal
Aplicação de inseticida nas paredes de recipientes e nas proximidades, conforme orientação técnica.
Aplicação espacial (UBV, o "fumacê")
Medida de emergência para matar mosquito adulto em situação de transmissão; não elimina criadouros e não substitui a visita.
Regra de ouro: produto químico é o último recurso, não o primeiro. O uso indiscriminado seleciona mosquitos resistentes e passa à comunidade a ideia falsa de que a solução vem de fora.
Biossegurança
Use o EPI indicado para cada atividade: luvas, botas, máscara, óculos, uniforme de mangas compridas.
Não coma, não beba e não fume durante a aplicação de produtos.
Lave as mãos e o rosto ao terminar; lave o uniforme separado da roupa da família.
Transporte e armazene inseticidas em local próprio, fechado, longe de alimentos e do alcance de crianças; nunca leve produto para casa.
Nunca reutilize embalagem de produto para outra finalidade.
Em caso de exposição, mal-estar, náusea, tontura ou irritação, interrompa, afaste-se, procure o serviço de saúde e comunique a chefia. Leve a informação do produto usado.
Atenção também a cães, escorpiões, cobras, sol, escadas, telhados e lajes.
Ciclos de visita
A rotina do programa organiza as visitas em ciclos, tradicionalmente bimestrais nas áreas infestadas, além das ações específicas em pontos estratégicos e da resposta a casos e surtos. Cada estado e município define os ciclos no plano local — confirme com a sua coordenação o que está em vigor na sua área.
Atividade prática
Escreva o roteiro completo de uma visita, da apresentação ao registro, incluindo três frases prontas para explicar o trabalho a um morador desconfiado e a forma de lidar com uma recusa.
Módulo 4 de 5
Registro, indicadores e resposta a casos
Cada visita gera um dado, e os dados juntos dizem onde está o risco. Saber ler esses números transforma o agente em quem planeja, não apenas em quem executa.
O LIRAa e o LIA
O Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa) e o Levantamento de Índice Amostral (LIA) são métodos de amostragem que medem rapidamente a infestação do município e apontam onde agir. Em vez de inspecionar todos os imóveis, inspeciona-se uma amostra por estrato, com identificação das larvas coletadas.
Os índices
Índice
O que mede
Índice de Infestação Predial (IIP)
Percentual de imóveis positivos: imóveis com larvas divididos pelos imóveis inspecionados, vezes 100.
Índice por Tipo de Recipiente (ITR)
Quais tipos de recipiente mais concentram criadouros — orienta a estratégia local.
Índice de Breteau
Número de recipientes positivos por cem imóveis inspecionados.
Como interpretar o IIP
Faixa
Situação
O que significa
Abaixo de 1%
Satisfatório
Risco baixo; manter a rotina e a vigilância.
De 1% a 3,9%
Alerta
Intensificar ações no território, com foco nos recipientes mais frequentes.
4% ou mais
Risco de surto
Mobilização ampliada, mutirões, ação intersetorial e resposta rápida.
Um índice satisfatório não significa ausência de risco: significa que a vigilância deve continuar. E um índice alto não é culpa do agente — é informação para direcionar esforço e cobrar apoio.
Usar o dado para planejar
Se o ITR mostra que o campeão é o vaso de planta, a campanha fala de vaso de planta — não de pneu.
Se um quarteirão concentra positividade, ele entra em prioridade e recebe mutirão.
Se determinados imóveis estão sempre fechados, combine horários alternativos, inclusive sábados, conforme a rotina do serviço.
Se o entulho é o problema, a solução envolve limpeza urbana e coleta — e isso se cobra por escrito, com registro.
Resposta a caso suspeito e a surto
Caso notificado chega da vigilância epidemiológica ou é identificado na comunidade.
Delimita-se a área ao redor do caso para ação de bloqueio, conforme o protocolo local.
Faz-se inspeção e eliminação de criadouros em todos os imóveis da área.
Aplicação de adulticida, quando indicada tecnicamente pela coordenação.
Orientação à população e busca de outros casos com a equipe de saúde.
Registro completo de tudo o que foi feito, com data e endereço.
Registro de qualidade
Anote na hora: imóvel visitado, tipo, situação (trabalhado, fechado, recusado), recipientes encontrados e tratados.
Não preencha formulário de imóvel que não foi inspecionado. Além de falta grave, cria pontos cegos que reaparecem como epidemia.
Mantenha o endereço padronizado: erro de endereço quebra a série histórica do quarteirão.
Alimente os sistemas de informação do SUS conforme a rotina do município.
Atividade prática
Com dados reais ou fictícios de 100 imóveis inspecionados e 6 positivos, calcule o IIP e classifique a situação. Depois, escreva o plano de ação para a semana seguinte com base nesse resultado.
Módulo 5 de 5
Outras endemias, zoonoses e mobilização
O Aedes ocupa o noticiário, mas o trabalho do agente vai muito além dele — e muda conforme a região do país.
Principais agravos sob vigilância
Agravo
Transmissor ou fonte
Ação do agente
Doença de Chagas
Triatomíneo, o "barbeiro", em casas de pau a pique e anexos.
Pesquisa em domicílio e peridomicílio, captura e envio do inseto, melhoria da habitação.
Leishmaniose visceral
Flebotomíneo, o "mosquito-palha"; o cão é reservatório.
Manejo ambiental, retirada de matéria orgânica, apoio ao inquérito canino.
Esquistossomose
Caramujos de água doce em córregos e valas.
Pesquisa malacológica, identificação de coleções hídricas, educação em saúde.
Malária
Anopheles, principalmente na Amazônia.
Busca de casos, apoio ao diagnóstico precoce, orientação sobre mosquiteiro e manejo ambiental.
Leptospirose
Urina de roedores, sobretudo após enchentes.
Controle de roedores por manejo do lixo e alimentos, orientação após contato com água de enchente.
Febre maculosa
Carrapato, em áreas com capivaras e cavalos.
Sinalização de áreas de risco e orientação sobre remoção correta do carrapato.
Raiva
Cães, gatos, morcegos e outros mamíferos.
Apoio à vacinação animal, atenção a morcegos em horário atípico, orientação para procurar o serviço após mordedura.
Escorpiões
Ambiente urbano com entulho e baratas.
Manejo ambiental, vedação de ralos e frestas, orientação sobre o que fazer em acidentes.
Manejo ambiental: a solução que dura
Quase toda endemia melhora com as mesmas medidas estruturais: destino correto do lixo, coleta regular, entulho retirado, água armazenada com segurança, esgoto tratado, quintal limpo e capina. Isso não depende apenas do morador — depende de política pública. Por isso o agente registra e comunica o que o território precisa: terreno baldio, ponto de lixo, córrego a céu aberto, casa em risco.
Comunicação com a comunidade
Fale do que interessa ao morador: mosquito na casa dele, criança doente, quintal dele.
Mostre, não só explique: ver a larva se mexendo no copo convence mais do que qualquer folheto.
Nada de ameaça ou culpa. Constrangimento fecha portão.
Enfrente boatos com informação simples e paciência; repita quantas vezes for preciso.
Articule com escolas, igrejas, associações, rádio local e com o ACS da área.
Mutirão funciona melhor quando é combinado com a comunidade e tem coleta de entulho garantida no mesmo dia.
Saúde do agente
A função expõe a sol, calor, caminhada longa, produtos químicos, animais e, às vezes, a hostilidade. Hidratação, protetor solar, EPI, pausas, exames periódicos e uso correto dos equipamentos são obrigação do serviço e direito seu. Se faltar EPI, registre e comunique — trabalhar sem proteção não é dedicação, é risco desnecessário. A Emenda Constitucional nº 120/2022 reconheceu esses riscos ao garantir adicional de insalubridade e aposentadoria especial.
O valor do trabalho
Epidemia evitada não vira notícia. Mas cada criadouro eliminado, cada morador que passou a virar o balde e cada caso encaminhado a tempo é parte de um resultado coletivo que salva vidas — e que depende de visita feita com cuidado, registro honesto e conversa paciente.
Para refletir
Quais problemas do seu território não se resolvem na visita casa a casa? A quem eles precisam ser levados, e com que registro?
Atividade prática
Planeje um mutirão no bairro com maior infestação: parceiros, data, divulgação, roteiro, coleta de entulho, materiais e forma de avaliar o resultado depois de trinta dias.
Para saber mais
Lei nº 11.350/2006, Lei nº 13.595/2018 e Emenda Constitucional nº 120/2022.
Manuais e diretrizes do Ministério da Saúde sobre vigilância de arboviroses, LIRAa e controle de vetores.
Plano municipal de contingência para arboviroses da sua cidade.
Cursos "Agente Comunitário de Saúde" e "Primeiros Socorros no Dia a Dia", aqui no Cursos Conecta.
Avaliação final
Avaliação final
São 15 questões sobre os 5 módulos. Para ser aprovado(a) e poder emitir o certificado, você precisa acertar pelo menos 11. Você pode refazer a prova quantas vezes quiser.